“A festa da ausência: população do município de Epitaciolândia ironiza gestão marcada por promessas não cumpridas”

Política
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Reportagem: Helizardo Guerra

Nos bastidores digitais do Alto Acre, especialmente nos grupos de WhatsApp — onde a indignação popular costuma ecoar sem filtros — uma “comemoração” no mínimo inusitada começa a ganhar forma: carreata, fogos de artifício e clima de festa. Mas não por uma conquista administrativa. Pelo contrário: pela possível saída do atual gestor do município de Epitaciolândia.

O motivo, segundo os próprios moradores, revela um cenário constrangedor para qualquer gestão pública. O anúncio de que o prefeito deve se lançar como pré-candidato a deputado estadual tem sido interpretado não como ascensão política, mas como um alívio coletivo. “Já vai tarde”, dizem alguns. “Agora vai dar pra respirar”, afirmam outros — um retrato direto do desgaste entre governo e população.

A ironia escancara uma realidade preocupante: em vez de celebrar obras, avanços ou melhorias concretas, a população se vê comemorando a saída de quem deveria liderar o desenvolvimento local. A ausência, nesse contexto, passa a parecer mais promissora do que a permanência — um diagnóstico duro, porém revelador.

As críticas não são recentes e tampouco isoladas. Ruas em condições precárias, iluminação pública deficiente, coleta de lixo irregular, acúmulo de resíduos a céu aberto e ramais abandonados ou mal executados compõem um cenário que, para muitos, evidencia mais do que dificuldades administrativas: aponta para falta de planejamento, fragilidade na gestão e ausência de compromisso com as demandas básicas da população.

Enquanto isso, a movimentação política segue seu curso, aparentemente indiferente às urgências locais. A pré-candidatura surge em meio a esse contexto como um capítulo controverso, levantando questionamentos inevitáveis: é razoável buscar novos cargos quando problemas elementares seguem sem solução? É coerente mirar novos espaços de poder enquanto a base administrativa permanece fragilizada?

No fim, a carreata que começa a se desenhar não celebra um legado, mas simboliza um grito coletivo de insatisfação. Em Epitaciolândia, o que se anuncia não é exatamente uma despedida festiva, mas um protesto travestido de comemoração. Fogos, nesse caso, não iluminam conquistas — apenas evidenciam o desejo urgente por mudança.

E, para quem vier a assumir ou continuar conduzindo os rumos do município, o recado já está dado: a população não quer mais promessas. Quer gestão, resultado e compromisso — e, desta vez, em curto prazo.