colunista: Ivana Cristina Colaboração: Carlos Portela (filho) Ícones de Brasileia e Epitaciolandia Volume II
Francisco Íduino de Oliveira Filho, nasceu no Seringal Paraguaçu, hoje Assis Brasil, no dia 20 de julho de 1922. Filho de Alzira e Francisco Íduino de Oliveira. Seu pai nasceu no Rio Grande do Norte e sua mãe, em Fortaleza, Ceará. Atraídos pelo ciclo da borracha, migraram para o Acre. Na época do recrutamento, período da primeira Guerra Mundial, foram criadas empresas como a SEMTA(Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para Amazônia) e CAETA(Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para Amazônia), que recrutaram pessoas para participarem da Segunda Guerra Mundial e caso não quisessem, a opção seria vir para o interior da Amazônia, sem nenhuma experiência, cortar seringa para a produção de “peles” de borracha, que era para atender as indústrias e interesses internacionais. Do Nordeste, saiam em caminhões “pau de arara” até Belem do Pará, onde a viagem com destino, principalmente ao Acre, continuava em navios. Ao chegar em Rio Branco, Acre, ficavam aguardando vários dias, até serem escolhidos pelos patrões de vários seringais que já estavam à espera desse carregamento humano. Na hora de serem escolhidos, ficavam em filas, onde os donos de seringais iam olhando, escolhendo e separando o seu “lote de humanos”, de lá o navio continuava viagem até o seringal Paraguaçu, a cada seringal que passava, rio a cima, desciam os escolhidos com seu novo dono, eles nem imaginavam o tipo de trabalho e doenças iam enfrentar. A malária castigava os “brabos”, que aqui chegavam. Separados em dois, três, quatro, eram deixados no meio da selva onde construíam pequenas estruturas com madeiras brutas, com “ranchos”(comida), material para o corte da seringueira e geralmente um rifle calibre 44, (bacamarte). No centro do seringal ficava o patrão com seu Barracão(espécie de mercado), ao redor ficavam várias colocações distantes umas das outras em matas brutas, mais de duas ou mais horas de uma pra outra, onde lá, como diz o ditado “o filho gemia sem sentir dor”. Seu pai, Francisco Íduino fixou residência no Seringal Paraguaçu, em uma colocação, e começou a trabalhar no corte da seringa e na produção da borracha. O trabalho era difícil, a selva era densa, a precariedade de transporte, saúde, meios de comunicação, tudo isso contribuíam muito para o isolamento de quem chegava. Nessa época, o deslocamento até Brasiléia era feito pelo Rio Acre, através de “chatas” a vapor de lenha. Poucos moradores costumavam vir para pequena Brasiléia, uma vez por ano ou até de dois em dois anos. As “chatas” levavam gêneros alimentícios para o Seringal Paraguaçu e voltavam carregadas de “peles” de borrachas. Alzira e Francisco tiveram 07 filhos: Duca Íduino, Antônio Íduino, Chaga Iduino, Raimunda Íduino, Chicó Íduino, Nestor Íduino, e “Nego Íduino” . Mas, quando foi para Chaga Íduino nascer, Alzira “sofreu” durante 07 dias, a parteira do seringal, não sabia mais o que fazer. Via a hora, “perder” mãe e filho. Foi aí que resolveram fazer uma promessa para São Francisco das Chagas, se a criança nascesse com vida, colocariam o nome de Francisco das Chagas, em homenagem ao Santo. E ele nasceu forte e saudável. Após algum tempo, seu pai veio à Brasileia e o registrou. No seringal não tinha escola e os filhos foram crescendo sem acesso à mesma. A maioria aprendeu a escrever apenas o nome e fazer cálculos matemáticos. Quando ficou adulto, Chaga Íduino veio para Brasiléia e conheceu uma linda jovem, Cleonice Portela. Logo foram morar juntos e trabalhar em seringais bolivianos, onde mais de 90% eram de brasileiros, o que era normal para a época. Chaga Íduino e Cleonice Portela tiveram 07 filhos: Clenir Portela Íduino, Cleto Portela Íduino, Célia Portela Íduino, Selma Portela Íduino, Carlos Portela Íduino, Cilmar Portela Íduino e Cleonice Portela Íduino, 5 nascidos nascidos na Bolívia. Os filhos estavam crescendo e precisavam estudar, mudaram-se para o município de Brasileia no início da década de 60. Chegando aqui, foi trabalhar de Estivador. O árduo trabalho nos seringais fizeram com que desenvolvesse muita força. Sua casa na cidade servia de “pouso” para os seringueiros que vinham dos seringais da Bolívia, vez por outra, muito deles andavam até 4 dias a pé e às vezes à procura de tratamento de saúde ou a negócios. A casa também servia de endereço(aos seringueiros)para as cartas enviadas e recebidas dos familiares que moravam no Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Pernambuco, Paraíba e até do Rio de Janeiro. Chaga Íduino era muito elogiado pelo trabalho de estivador, fato esse que o levou a trabalhar junto com o Seu Manduca Carregador, na FAB(Força Aérea Brasileira), na época, aviões de grande porte aterrissaram no Aeroporto de Vila Epitácio ou Campo de Aviação como chamavam na época. No aeroporto de Vila Epitácio construíram um prédio que era a sede ou base da FAB(até hoje, ainda tem vestígios do antigo prédio). O avião da FAB vinha quinzenalmente trazendo mercadorias. Essas mercadorias eram descarregadas, e transportadas nas costas e depois nas carroças de bois até o porto da catraia. Chaga Íduino e Seu Manduca Carregador, faziam essa travessia, levando remédios, alimentos, geladeira à querosene, nas costas. Descendo e subindo o porto da catraia para entregar as mercadorias aos grandes comerciantes de Brasileia. Nessa época, foi preciso assinar sua carteira de trabalho, descobrindo que seu pai tinha registrado ele no cartório de Brasileia com o nome de Francisco Íduino de Oliveira Filho. Uma descoberta surpreendente, afinal ele passou a vida toda pensando que seu nome era Francisco das Chagas Íduino, inclusive registrou todos os seus filhos com esse nome. Nessa época continuava vindo lanchas e “chatas” pelo Rio Acre, mas não passavam de Brasileia devido ao assoreamento do Rio Acre. Chaga Íduino trabalhou mais de uma década na FAB, lá pela década de 70. Também trabalhou em uma Empresa de Estradas e Rodagem, como auxiliar de Topógrafo, na BR 317. Depois de um certo tempo, foi reiniciado os trabalhos de perfurações de solo, ele era encarregado de retirar e colocar amostra de terras em pequenos vidros para análise dos engenheiros em São Paulo e Rio de Janeiro. Também do local onde seria construído uma ponte pra ligar Vila Epitácio à Brasiléia Essa ponte passaria na “altura” da praia do Adolfo, isso no início dos anos 70; mas essa a ponte nunca saiu do papel. Realizou também escavação manual com dois metros de comprimento por três metros de “fundura”. E todo material coletado era encaminhado aos engenheiros, para a concretização da BR 317, trabalhou nessa função no início da década de 70. Vila Epitácio começou a crescer e se desenvolver. Chaga Íduino passou a trabalhar como catraieiro e sua casa era ao lado do porto da catraia em Brasileia. Algumas pessoas batiam à sua porta de madrugada e às vezes na chuva ou no frio, para atravessar para o outro lado do rio. E pacientemente, ele atendia as pessoas, tendo dinheiro ou não para pagar a travessia. Chaga Íduino trabalhou também com o Senhor Antônio Mansour, dono do Seringal Bela Flor. Seu comércio era em frente ao porto da catraia do lado de Vila Epitacio. O Seringal Bela Flor, anos depois foi vendido para o governo, tendo o Senhor José Cândido de Mesquita, representante do governo, feito as demarcações da terra de Vila Epitácio, hoje Epitaciolandia. Após anos trabalhando como catraeiro, Chaga Íduino passou a trabalhar no órgão do governo, antiga Colonacre, onde atendia os pequenos produtores. Com o tempo foi trabalhar na Peladeira de Arroz junto com o Senhor Zé Tucum. Foram anos de trabalho. Atualmente no local funciona o Centro de Saúde José Cândido de Mesquita. Mas, com o tempo, a Peladeira de arroz fechou e Chaga Íduino foi trabalhar na Peladeira de Arroz do Senhor Preto Ribeiro com o Nicolau(conhecido como Calhau), trabalhou até a década de 2000. Além disso, trabalhou por muitos anos no Nari Bela Flor onde sozinho dava conta de atender a produção de arroz dos colonos, onde também deixou seu legado de ser querido pelos produtores, que quando pegavam seu arroz, sempre deixavam pra ele, feijão, café, ovos, galinha, bananas e outros produtos. Chaga Íduino foi seringueiro, agricultor, serrador manual, catraieiro, estivador, e funcionário público. Foi um pai presente, mesmo não tendo formação acadêmica, lutou muito para que seus filhos pudessem estudar, ter uma formação e uma profissão. Chaga Íduino foi um cidadão respeitado, trabalhador, de uma paciência e tranquilidade inabalável. Era reconhecido por seu altruísmo e educação. Um homem muito forte, já idoso, manejava uma saca de arroz de 60 kg, fazendo pouco esforço e jogando na “peladeira” na altura de um metro e oitenta. Uma de suas recordações da infância eram as brincadeiras na beira do rio no seringal Paraguaçu, hoje Assis Brasil, onde ele e um grupo de crianças e jovens, brincavam num barranco e subiam em uma árvore pulando dentro do rio. Ao lado do barranco tinha uma palmeira com folhas diferentes. Era nesse lugar que as “chatas” atracavam para descarregar e carregar mercadorias. De tanto falar nesse lugar, seu filho, Carlos Portela, depois de quase 60 anos, levou-o para rever o lugar preferido de sua infância. A palmeira estava lá, da mesma forma que ele a descrevia por longos anos. Emocionado, começou a chorar ao relembrar seu lugar preferido na infância. Chaga Íduino estava solteiro e já com a idade avançada, mas não era problema para ele, que vivia rodeado dos filhos e amigos. Com a chegada de seu filho Carlos Portela, que estudava no Rio de Janeiro, passou a aconselhar o pai a procurar uma esposa, a princípio ele rejeitava à ideia e até que se relacionou com a senhora Maria Eugênia, onde teve um casal de filhos, Sandra Íduino e Rogério Íduino. Permaneceram juntos, até seus últimos dias. Com a chegada de seu filho, Chaga Íduino passou o posto de catraeiro para ele. Carlos Portela remou até a construção da primeira ponte de madeira, no governo de Nabor Junior, que veio cair, em 1984, provocando a morte do Soldado Brito. Seu Chaga Íduino, se sentia orgulhoso com seus filhos, netos e bisnetos. Faleceu aos 94 anos, no dia 12 de novembro de 2014, deixando seus filhos, netos, bisnetos e sua esposa com coração enlutado por sua breve partida e com boas recordações. No início do ano de 2000, seu filho Carlos Portela, fez uma busca para encontrar o nome do pai. Na busca encontrou seu pai com registro de 3 nomes diferentes e sua mãe, por incrível que pareça, também. “Entrou” na justiça e regularizou seu nome e de suas filhas. O nome oficial era Francisco Íduino de Oliveira Filho, e não Chagas Íduino e nem Francisco das Chagas Eduino. Já sua Mãe se casou como Cleonice Portela, passando a Cleonice Portela Eduino, e pra se aposentar, foi descoberto o seu registro original com o nome de Cleonice de Almeida Portella, esse Portela com dois “LL”, coisas da época. Após 10 meses do falecimento de seu pai, sua mãe, Cleonice Portela, veio a falecer. “Chaga Íduino” foi registrado com outro nome, mas, a população de Epitaciolandia e Brasiléia e seus descendentes sempre lembrarão dele como “Chaga Íduino”, um homem que fez história e deixou sua marca através de seu trabalho, amor ao próximo e solidariedade.