colunista Prof. Msc. João Evangelista
Congresso paraguaio aprova nota de repúdio; parlamentares dizem que presidente brasileiro distorceu fatos históricos, reabriu feridas do passado e adotou postura contraditória em relação ao país vizinho
As declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a Guerra da Tríplice Aliança provocaram forte reação no Paraguai, mobilizando parlamentares de diferentes espectros políticos e culminando na aprovação de uma nota formal de repúdio pelo Congresso do país.
A polêmica começou quando Lula, durante visita a uma fábrica da empresa de defesa Avibras, em Jacareí (SP), citou o conflito do século 19 para justificar o aumento dos investimentos nas Forças Armadas brasileiras. Ao defender a importância da dissuasão militar, o presidente afirmou que o Brasil “gosta da paz”, mas não pode esquecer que “um dia o Paraguai decidiu invadir” o país, além de Argentina e Uruguai.
A fala repercutiu mal entre parlamentares paraguaios. Um dos primeiros a reagir foi o senador Eduardo Nakayama, historiador e integrante da oposição, que classificou as declarações de Lula como “politicamente inadequadas” e “historicamente imprecisas”, por distorcerem, segundo ele, a cronologia dos acontecimentos que antecederam a guerra. Em publicação nas redes sociais, Nakayama afirmou que o presidente brasileiro “esqueceu” que, antes de o Paraguai iniciar a campanha militar no Mato Grosso, o Exército Imperial brasileiro já havia invadido o Uruguai, em Cerro Largo — episódio que, na leitura do senador, desencadeou o conflito mais sangrento da história sul-americana.
O presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre, do Partido Colorado, também criticou publicamente o tom das declarações. “Lula, você está falando com demasiada leveza sobre a maior tragédia da nossa história, o maior genocídio do nosso continente”, afirmou, em comunicado institucional. Latorre lembrou que a guerra, travada entre 1864 e 1870 e que opôs o Paraguai a Brasil, Argentina e Uruguai, provocou a perda de cerca de 60% da população paraguaia e de aproximadamente 90% dos homens em idade adulta, além de ter começado, segundo ele, com a intervenção militar brasileira no Uruguai — não com uma agressão paraguaia, como sugeriu Lula.
A repercussão avançou para o plano institucional dias depois, quando o Senado paraguaio aprovou, em sessão extraordinária, uma nota de repúdio às declarações do presidente brasileiro. O texto, de autoria de Nakayama, afirma que as falas de Lula “distorcem e simplificam unilateralmente as origens da Guerra da Tríplice Aliança” e atribuem ao Paraguai o “status de único agressor”, omitindo a invasão brasileira ao Uruguai que precedeu o conflito. O documento também descreve as consequências da guerra para o país como “catastróficas e sem paralelo na história da América do Sul” e afirma que essa “ferida permanece aberta na memória coletiva do povo paraguaio”, sendo reaberta por declarações como as do petista. Os senadores pediram às autoridades brasileiras que adotem “uma abordagem respeitosa, equilibrada e verídica” em relação à história compartilhada entre os dois países.
Também se manifestou a senadora de esquerda Esperanza Martínez, que classificou as declarações de Lula como reflexo de uma visão que tenta ocultar, em suas palavras, uma “guerra criminosa” e uma política histórica de domínio da elite brasileira sobre o Paraguai — mostrando que a insatisfação ultrapassou divisões ideológicas internas do país.
Para Nakayama, além de reabrir feridas históricas, as declarações de Lula comprometeram o relacionamento diplomático entre os dois países e evidenciam uma postura de desdém do governo brasileiro em relação ao vizinho. O senador ainda apontou o que considera uma contradição no discurso do presidente: Lula costuma defender a solidariedade entre nações e cobrar moderação dos Estados Unidos em temas internacionais, mas não aplicaria os mesmos princípios ao tratar do Paraguai. Segundo ele, o petista condena certas formas de imperialismo enquanto demonstra complacência com o que chamou de “imperialismo brasileiro” — resumindo a crítica na frase de que, para Lula, “alguns impérios são maus e outros são bons”.
Até o momento da publicação desta reportagem, o governo brasileiro não havia se manifestado oficialmente sobre a nota de repúdio nem sobre as críticas dos parlamentares paraguaios.