Chico Carlos e Dona Preta

ICONES DE BRASILÉIA E EPITACIOLANDIA POR IVANA CRISTINA
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colunista: Ivana Cristina
Colaboração: Carlos de Oliveira Neto(Carlão do Pagode)
Ícones de Brasileia e Epitaciolandia

Francisco de Oliveira e Silva, era seu nome, mas todos o conheciam por Chico Carlos, o “homem da Chicha”, a melhor que eu já provei. As ruas da Vila Epitácio ficavam pequenas, quando ele passava vendendo chicha nos litros.
Chico Carlos era o único filho(homem) do casal Francisca(Dona Chica) e Carlos de Oliveira.
O pai de Chico Carlos era seringueiro nos longínquos seringais da Bolívia. Sua infância foi vivida nos seringais, acompanhando seu pai no corte da seringa e na “quebra” da castanha.
Na juventude, mudou-se para a zona rural da Vila Epitácio, em uma colônia chamada Bom Jardim. Trabalhou muito na agricultura e na criação de pequenos animais.
Um certo domingo de sol, conheceu uma jovem que seria o amor de sua vida, Lindaura Carrilho, mas conhecida por Dona Preta. Ela era filha do ex-combatente das Forças Armadas de Pando – Bolívia, Izaías Carrilho e de Gonçala Torres de Aragão. Mas, Chico Carlos não se intimidou com a patente de seu futuro sogro. Ao olhar para Preta, soube na hora que tinha encontrado o amor. Namoraram e casaram. Chico Carlos era um homem muito popular e extrovertido. Dona Preta, era uma senhora muito reservada. Tinha sofrido muito na vida. Quando era adolescente, casou-se e teve 05 filhos: José Carrilho, Eugênia Carrilho, Francisco Carrilho, Antônio Carrilho e Isaías Carrilho. O relacionamento não deu certo e Dona Preta teve que conviver com o preconceito das pessoas de “ser mãe solteira”. Manter distância das pessoas era uma forma de se proteger, mas quem a conhecia de perto sabia do coração bondoso que ela tinha.
Os dois formaram uma só família morando na zona rural.
O tempo foi passando! Chico Carlos e Dona Preta tiveram três filhos: Evaldo Carrilho de Oliveira, Carlos de Oliveira Neto e Ana Maria Carrilho de Oliveira. Eram 08 irmãos, a família estava completa.
Católicos e morando na zona rural, foram Monitores da Igreja católica localizada no Km 14, da BR 317, antiga variante, sentido Rio Branco. Por muitos anos moraram na zona rural, mas os filhos precisavam estudar e se mudaram para a Vila Epitácio em 1986.
Seu Chico Carlos sabia da importância dos estudos para seus filhos, sua formação escolar foi toda na Bolívia. Tinha uma ótima oratória, quem o ouvia, dizia que ele tinha formação superior, pelo domínio correto das palavras, pelo conhecimento de assuntos do passado e do cotidiano. Falava dois idiomas fluentemente: português e espanhol. As pessoas gostavam de ouvi-lo e ficavam encantadas com seus conhecimentos.
Chico Carlos e Dona Preta se tornaram evangélicos da igreja Assembléia de Deus. Renovam sua fé em cada culto, em cada grupo de oração que participavam.
Chegando em Vila Epitácio, Chico Carlos teve que trabalhar muito para sustentar sua família. Trabalhava de diarista nas colônias e
percebeu que não havia vendedores de pães na zona rural.
Com sua visão empreendedora, começou a fazer pães. Enchia seu paneiro de pães, dos mais variados tipos, ia vender nas colônias. Quem tinha dinheiro, pagava com dinheiro, quem não tinha fazia uma espécie de escambo. Saía de casa com pães e voltava depois de dois dias, com o paneiro cheio de: galinha caipira, ovos, banana, queijo, feijão, arroz, macaxeira, banha de porco, jerimum, laranja, limão, tangerina e verduras. A maioria dos produtos era para consumo da família. As galinhas e os ovos eram vendidos. Chico Carlos, acordava bem cedinho, colocava uma vara nos ombros, pendurava as galinhas e vendia em Cobija. As bolivianas já o conheciam, quando via o Chico Carlos chegando, corriam ao seu encontro e compravam galinhas e ovos. Eram ótimas freguesas. À tarde, Dona Preta fazia mingau de banana e Chico Carlos, saía em um carrinho, vendendo mingau de banana pelas ruas de Vila Epitácio.
O dinheiro que arrecadava com as vendas dos produtos comprava porco na zona rural. Matava, “carneava”, fazia torresmo e vendia, principalmente para os bolivianos. Com seus conhecimentos, Dona Preta passou a fazer a chicha de milho. Seu Chico Carlos, apenas vendia, mas foi ele quem ficou famoso entre os moradores de Vila Epitácio. Todos queriam comprar a famosa chicha de milho do Seu Chico Carlos. Inclusive tinha encomenda antecipada para não perder o “néctar de milho”, como chamavam alguns.
Lembro com saudades do meu tempo de criança, ficava eu e a Francisca Oliveira esperando o “homem da chicha” passar, sem um “tostão” no bolso e sentadas na calçada em frente a Taberna do João Joaquim, pai da Francisca. E de longe ouvia! -Olha a chicha!
João Joaquim era freguês do Chico Carlos e nós saborearvamos aquela deliciosa chicha, às vezes, nós duas, colocávamos água para a chicha render mais. Ah, tempo bom!
Dona Preta não se importava com a fama de Chico Carlos, ela era uma mulher muito discreta. Quase não saía de casa, dificilmente ia à casa de um parente ou vizinho. Mas, sabia tudo que acontecia nos arredores da cidade. Dona Neide era sua vizinha e amiga, as duas conversavam por um longo tempo ao telefone.
Dona Preta tinha diversos problemas de saúde, má circulação nas pernas e problemas na vesícula, isso a impedia de caminhar e ir à igreja. Mas, procurava manter a rotina dentro de casa. Sua frase preferida aos filhos era: “Quem não é fiel no pouco, não é no muito”. E eles levaram esse ensinamento para a vida.
A saúde de Dona Preta se complicou, foi levada de imediato ao hospital, mas antes de chegar, teve uma parada cardiorrespiratória, indo a óbito dia 05 de outubro de 2007, aos 64 anos de idade. Seu breve e inesperado falecimento deixou seu grande amor Chico Carlos, com o coração enlutado, seus filhos e netos inconsolados. Uma grande mulher tinha partido de forma tão repentina e demoraram a acreditar no que tinha ocorrido.
Com o falecimento da esposa, Chico Carlos ficou depressivo. A ausência da companheira com quem ele conviveu por muitos anos, deixou um vazio imenso na sua vida. Mesmo seus filhos visitando todos os dias, ele se sentia sozinho. Muitas vezes ele desabafava: Eu sei que vocês vêem todos os dias, me fazem companhia, cuidam de mim, mas no final do dia, cada um vai para sua casa, com esposa, filhos e a solidão é minha companheira”.
Em 2015, Chico Carlos foi acometido por dengue. Ficou internado por vários dias. Recebeu alta, voltou para casa, mas não melhorou. Estava muito debilitado. Voltou novamente ao hospital e ficou internado. Seu estado de saúde aos poucos ia se deteriorando. Sua imunidade estava tão baixa que contraiu infecção hospitalar, agravando ainda mais seu estado.
No dia 25 de fevereiro de 2015, o Senhor Francisco de Oliveira e Silva, conhecido carinhosamente por Chico Carlos, veio a óbito aos 83 anos de idade. Deixando seus familiares entristecidos com sua partida. Chico Carlos foi esposo, pai, avó e amigo, sempre presente. Tinha uma risada contagiante que iluminava todos ao redor.
Dona Preta e Chico Carlos deixaram um legado para os seus filhos: “O amor, trabalho, zelo, honestidade, respeito, dignificam o ser humano”.
Esse belo casal deixou saudades: nos abraços apertados aos filhos e netos; no cheirinho de torresmo que invadia a casa e se espalhava pelo ar; no sabor da famosa “chicha de milho”; nos “carões” disfarçados de carinho; nas bênçãos recebidas; no lar cheio de alegria e sorriso e na mesa farta.
Chico Carlos e Dona Preta foram exemplos de um casal que se dedicava um ao outro, que se dedicavam aos filhos, netos e amigos, à igreja e criaram seus filhos com respeito e amor à Deus.
Que Deus abençoe grandemente os descendentes da Dona Preta e Seu Chico Carlos.