Severino Alves Filho

ICONES DE BRASILÉIA E EPITACIOLANDIA POR IVANA CRISTINA
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colunista: Ivana Cristina
Colaboradores: Dária Aires e Diniz Aires
Depoimento: Severino Alves Filho
Ícones de Brasileia e Epitaciolandia

Severino nasceu em 02 de abril de 1934, no Seringal Primavera, em Brasileia, Acre. A vida no seringal era difícil, trabalhava desde criança para ajudar no sustento da família. Gostava de pescar e caçar, principalmente às margens do Rio Acre. No dia 02 de abril de 1948, dia do seu aniversário, pegou uma catraia e foi remando do lado brasileiro para o lado boliviano, no seringal Primavera. Estava completando 14 anos e fazendo o que mais gostava, pescar. O dia estava lindo, uma brisa suave pairava no ar, na floresta densa, só se ouvia o canto dos pássaros e as águas barrentas do rio correndo em direção ao infinito. Quando atracou no porto improvisado, viu a “ubá” atracada à beira do Rio Acre. Retirou a espingarda que levava na catraia e colocou na “ubá”, por ironia do destino, a espingarda escorregou e disparou, atingindo seu braço. A dor era insuportável e o sangue começou a jorrar. Ficou tonto por alguns segundos e tentou segurar o braço estraçalhado pelo tiro. Ao ouvir o disparo, seu irmão, Raimundo Alves, que estava do outro lado do rio, nadou em sua direção. Improvisou um torniquete e levou-o para o Hospital de Cobija. O hospital funcionava em um galpão improvisado, o médico era Roberto Galindo Teran, que salvou sua vida com os recursos disponíveis. Amputou seu braço com facão, serrote e água quente. Não havia anestesia no hospital improvisado e tudo foi feito “a sangue frio”. Dr. Roberto Galindo Teran mergulhava seu braço na água fervendo para estancar o sangue e em seguida ia cortando. Severino sentiu tanta dor, que desmaiou inúmeras vezes. Tomou 8 ampolas de benzetacil, custando 700 mil réis, cada uma. A cirurgia foi traumática, mas salvou sua vida. Aos poucos, Severino foi se recuperando. E voltou para o Seringal Primavera, trabalhando com dificuldade, mas com força para vencer.
A vida não foi a mesma depois da amputação do braço. Foi nesse período que conheceu Maria Isabel, que morava no Seringal Bela Flor. Namoraram e casaram no ano de 1956. O casal ficou morando no seringal Bela Flor e lá nasceram seus filhos.
Em um certo dia, conheceu o senhor Osvaldo Aires, primo de sua esposa. Osvaldo chamou Severino para trabalhar no aeroporto em Vila Epitácio, época em que o avião da FAB-Força Aérea Brasileira fazia transporte de pessoas de Rio Branco à Brasiléia, de 15 em 15 dias. Trabalhava de sinalizador de pista de aterrissagem no aeroporto. Muitas pessoas observavam o trabalho de Severino e alguns amigos aconselhavam a colocar uma prótese no braço. Severino viajou para o Rio de Janeiro, pois no Acre, ainda não dispunha de serviço protético.
As pessoas o chamavam de Severino cotó”” e isso o incomodava muito, deixando-o bastante deprimido, não tinha mais ânimo para viver. Severino ao chegar no Rio de Janeiro, conheceu uma mulher que lhe ensinou a ter autoestima, a valorizar a vida, independente de ter braço ou não.
Severino voltou para o Acre e seguiu trabalhando no aeroporto, mas pensando em ter seu próprio lugar. O INCRA estava desapropriando o seringal Bela Flor e doando para as famílias que quisessem trabalhar na terra. Severino conseguiu 52 hectares de terra. Hoje, Km 06 da BR 317, sentido Rio Branco. Lá morou durante décadas com seus filhos: Delzimar, Dilma, Dária, Dionízio, Diniz e Deuza. Com o passar do tempo sua esposa Maria Isabel, mais conhecida por “Biluca”, ficou muito doente e precisou viajar a São Paulo para colocar uma válvula no coração, por lá ficaram por um ano, graças a Deus retornou bem de saúde. Enquanto estavam em São Paulo, seus filhos ficaram na colônia chamada Maria Isabel.
O lugar era lindo, Severino recebia amigos do Exército e várias outras pessoas da cidade nos finais de semana para jogar bola, pescar, inclusive tinha Campeonato de Pesca realizado pelo Delegado Maurício Generoso e Carlito César. Carlito César ficou encantado pelo lugar.
Após dois anos, Maria Isabel ficou novamente doente e foi encaminhada para fazer tratamento em Manaus, mas como não dispunha de recursos financeiros suficiente, Severino foi obrigado a vender sua bela colônia, para comprar uma casa em Vila Epitácio e custear as despesas da viagem e tratamento de sua esposa. Assim que anunciou a venda, Carlito César ficou interessado e comprou o lugar e rebatizou de “Refúgio do Baleia”.
Apesar dos inúmeros tratamentos e a realização de uma cirurgia cardíaca, Maria Isabel não resistiu e veio a óbito no dia 20 de dezembro de 1981, deixando sua família com o coração enlutado.
Depois que Maria Isabel faleceu, Severino mudou-se para o seringal, lá conheceu Albertina Pereira.
Francisco vulgo “Chiquitão”, pai de Albertina, não queria o namoro, mas ela estava tão apaixonada, que fugiu para morar com Severino no seringal.
Albertina e Severino criaram suas filhas até constituírem famílias. Albertina adoeceu e faleceu em 02 de abril de 2021 de aneurisma cerebral.
Com suas filhas casadas, ele ficou triste e solitário, aos cuidados de suas filhas.
Severino precisava dar um novo sentido à sua vida e conheceu Dona Inês de Jesus Bezerra da Silva, uma mulher linda, sorriso contagiante, acolhedor e compreensiva. Dona Inês, viúva, mãe dedicada e amorosa. Seus cinco filhos já tinham constituído famílias. Dois corações solitários que se uniram e vieram morar em Epitaciolandia.
Severino é aposentado, mas sofreu muito, reaprendeu com apenas um braço, a cortar seringa, fazer derrubada, caçar, consertar tarrafa, “apanhar” arroz, capinar e fazer diversos serviços.
Com os olhos cheios de lágrimas, Severino recorda quando seu filho Francisco Amarildo (Nego), veio confirmar se ele era seu pai, os dois se abraçaram e até hoje, eles têm uma ligação bem próxima. Seu filho, Nego, um homem já feito, foi recebido de braços abertos pelos outros irmãos. Agora sim, a família estava completa. Apesar de todos os anos, Severino nunca se esqueceu de seu filho Nego, mas, faltava coragem para se aproximar e revelar que era seu pai.
Hoje, ele é um homem feliz e realizado, ao lado de seu grande amor, a bela Dona Inês. Sua felicidade é completa pelo amor e carinho de seus
10 filhos, 23 netos, 18 bisnetos, noras, genros e amigos. Dona Inês é uma dessas pessoas rara de se ver. Traz a beleza e a simplicidade no olhar. Muito carismática está sempre com um sorriso no rosto, seus olhos brilham de admiração e carinho ao contemplar seu esposo, Severino. Um casal formidável, acolhedor e respeitoso, que nasceu um para o outro. Trilharam caminhos diferentes, mas, Deus os uniu, para completar a felicidade um do outro. Que Deus os abençoe sempre.