colunista: ALÉM DA MANCHETE – Por João Evangelista
Estado reúne localização estratégica, riqueza ambiental e potencial para liderar a bioeconomia, mas ainda enfrenta gargalos em infraestrutura, industrialização e ambiente de negócios
Durante décadas, o Acre conviveu com um paradoxo que desafia governos, empresários e especialistas: ao mesmo tempo em que reúne uma das maiores riquezas ambientais do planeta e ocupa uma posição geográfica privilegiada na Amazônia Ocidental, permanece entre os estados com menor participação na economia nacional. Superar esse contraste tornou-se um dos maiores desafios para consolidar um modelo de desenvolvimento capaz de gerar emprego, renda e competitividade sem abrir mão da preservação da floresta.
Na fronteira com Peru e Bolívia, o estado ocupa posição estratégica para a integração comercial entre o Brasil e os mercados do Oceano Pacífico. Entretanto, transformar essa vantagem geográfica em crescimento econômico depende da superação de obstáculos históricos que há décadas limitam o ambiente de negócios, elevam os custos de produção e dificultam a atração de investimentos privados.
O que se comprova é que o desenvolvimento do Acre passa necessariamente por uma combinação de planejamento de longo prazo, estabilidade institucional, investimentos em infraestrutura e incentivo à inovação. O estado dispõe de condições para liderar uma economia baseada no uso sustentável da biodiversidade, mas ainda carece de políticas permanentes capazes de transformar potencial em resultados concretos.
Atualmente, a economia acreana permanece concentrada nos setores de comércio, serviços e administração pública. Embora atividades como pecuária, agricultura, extrativismo vegetal e manejo florestal tenham evoluído nos últimos anos, grande parte da produção continua sendo comercializada sem processamento industrial, reduzindo a geração de empregos qualificados, renda e arrecadação.
A deficiência logística continua sendo um dos maiores entraves ao desenvolvimento. A forte dependência da BR-364 para o transporte de mercadorias amplia custos operacionais e cria insegurança para empresários e produtores, sobretudo durante o inverno amazônico, quando as chuvas comprometem a trafegabilidade em diversos trechos da rodovia. A inexistência de uma malha ferroviária e a baixa utilização do potencial hidroviário tornam o transporte mais caro e reduzem a competitividade das empresas locais.
Representantes do setor produtivo também apontam a burocracia, a elevada carga tributária, a insegurança jurídica e as dificuldades de acesso ao crédito como fatores que afastam novos investimentos. Para economistas, um ambiente regulatório mais simples e previsível constitui requisito indispensável para ampliar a confiança do empresariado e estimular a instalação de novas indústrias.
Outro desafio está na formação profissional. Apesar da expansão do ensino superior e da educação técnica, empresários relatam dificuldades para contratar mão de obra especializada nas áreas de tecnologia, engenharia, indústria, logística e inovação. A aproximação entre universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo é vista como essencial para reduzir esse descompasso.
A elevada dependência do setor público continua sendo uma característica marcante da economia acreana. Em muitos municípios, a administração pública responde pela maior parte da circulação de renda, tornando a economia mais vulnerável às oscilações fiscais e limitando o crescimento da iniciativa privada.
Potencial ainda subaproveitado
Apesar das limitações estruturais, especialistas enxergam no Acre oportunidades capazes de impulsionar um novo ciclo de crescimento. A biodiversidade amazônica oferece matéria-prima para o desenvolvimento da bioeconomia, da indústria farmacêutica, da produção de cosméticos naturais, da biotecnologia, do manejo florestal sustentável e da comercialização de créditos de carbono, setores que vêm ganhando espaço na economia mundial.
A agroindústria também desponta como alternativa para agregar valor à produção de café, cacau, castanha-do-brasil, frutas amazônicas, madeira certificada e produtos oriundos do extrativismo. O processamento local pode ampliar a renda dos produtores, fortalecer cooperativas e aumentar a participação do Acre nas exportações brasileiras.
Outro diferencial pouco explorado é a integração internacional. Com investimentos em infraestrutura logística, modernização das aduanas e fortalecimento das relações comerciais com países vizinhos, o estado pode consolidar-se como corredor estratégico para exportações destinadas ao Pacífico e aos mercados asiáticos.
Agenda para destravar o crescimento
Entre as prioridades apontadas estão a recuperação e modernização da infraestrutura rodoviária, ampliação da conectividade digital, criação de distritos industriais, expansão das linhas de crédito para pequenas empresas e cooperativas e fortalecimento dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação.
Também se defende maior segurança jurídica, estabilidade regulatória e simplificação tributária como instrumentos fundamentais para reduzir riscos aos investidores. Na avaliação de economistas, estados que conseguiram acelerar seu desenvolvimento combinaram políticas públicas consistentes com um ambiente institucional favorável à iniciativa privada.
Perspectivas
O Acre possui todos os elementos necessários para construir um modelo moderno de desenvolvimento econômico baseado na sustentabilidade, na inovação e na agregação de valor aos recursos naturais. O desafio consiste em transformar vantagens geográficas e ambientais em oportunidades concretas de negócios.
Caso consiga superar gargalos históricos e consolidar uma estratégia integrada entre governos, universidades, setor produtivo e sociedade civil, o estado poderá reduzir sua dependência da administração pública, ampliar sua participação nas exportações e construir uma economia mais diversificada, resiliente e competitiva.
Mais do que crescer economicamente, o Acre tem diante de si a oportunidade de tornar-se uma referência internacional em desenvolvimento sustentável, demonstrando que conservação ambiental e prosperidade podem caminhar lado a lado quando planejamento, inovação e segurança institucional atuam como pilares de uma estratégia de longo prazo.