O Fominha da Pescaria

Joao Evangelista
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colunista: prof. Mac. Joao Evangelista

Desde a minha infância, a vida só fazia sentido pleno quando vivida ao ar livre, em comunhão direta com a natureza. O verde vivo da mata fechada, o perfume fresco da grama molhada pelo orvalho da manhã e o murmúrio suave das águas cortando os igarapés acendiam em mim uma sensação inebriante de liberdade — um sentimento tão denso que as palavras mal conseguem traduzir. Dentre todos os encantos daquela época, a pesca não era apenas um passatempo; era uma verdadeira paixão.

Aos doze ou treze anos, eu já exibia com orgulho minha primeira conquista: uma tarrafa de três carros de linha — medida que, naquele tempo, definia o respeito e o tamanho da tralha. Com ela nos ombros, eu percorria os córregos e igarapés próximos à pequena cidade onde nasci, caçando traíras, carás, cascudos, piabas e uma infinidade de peixinhos que povoavam as águas rasas. Duas vezes por semana, sem falta e sempre que o dia permitia, eu saía antes mesmo de o sol despontar. Passava horas a fio explorando as margens e aprendendo os segredos do rio. O tempo foi correndo e, na mesma proporção em que eu crescia, minha paixão pela pescaria criava raízes profundas.

Como acontece em qualquer hobby ou esporte, a afinidade acaba unindo as pessoas. Aos poucos, formou-se ao meu redor um grupo de companheiros de barranco. Com o passar dos anos, a vida encarregou-se de girar a roleta: alguns amigos tomaram rumos diferentes, mudaram-se de cidade ou simplesmente penduraram as varas; outros chegaram para preencher as lacunas e renovar a turma. Afinal, a existência é um eterno ciclo de encontros e despedidas.

Num acampamento de pesca, a divisão do trabalho costuma acontecer de forma natural e espontânea: O Organizador: gosta de erguer as barracas, fincar as estacas e garantir a estrutura do acampamento. O Mestre das Iscas: dedica-se a preparar os anzóis, encastoar as linhas e escolher as melhores iscas. O Cozinheiro: assume o fogão improvisado, garantindo que a fartura nunca falte ao redor da mesa.

Contudo, quase todo grupo padece com a presença de uma figura bastante singular e indigesta: o famoso “fominha”.

O “fominha” é aquele tipo peculiar que jamais recusa um convite. É o primeiro a confirmar presença no grupo de conversa, mas milagrosamente desaparece quando surge a primeira tarefa braçal. Enquanto os demais suam a camisa para descarregar a canoa, erguer a estrutura e arrumar a cozinha, ele já está com a linha na água, arremessando sem parar. É sempre o último a abandonar a margem do rio, deixa uma rastro de bagunça para que os outros limpem e, na hora sagrada de dividir o cardume, faz questão de reivindicar os maiores e mais belos peixes da jornada.

Quem já dividiu um barranco de rio certamente já topou com um exemplar dessa espécie.

Depois de acumular algumas experiências desagradáveis, aprendi que saber escolher com quem você vai pescar é tão vital quanto descobrir o melhor poço para lançar o anzol. Um parceiro egoísta tem o poder de transformar um momento de puro lazer em uma incômoda dor de cabeça.

Meses atrás, vivi um episódio doloroso que selou essa lição na minha mente.

Éramos cinco amigos em uma expedição planejada para durar três dias inteiros. Após quase duas horas rasgando as águas do Rio Juruá, a bordo de uma canoa movida a motor de rabeta, finalmente desembarcamos na praia de areia branca onde montaríamos o acampamento. O sol de meio-dia castigava sem piedade, e o consenso era claro: precisávamos erguer o acampamento o mais rápido possível para escapar do calor sufocante.

Assim que a embarcação encostou na margem, todos começaram a transpirar para descarregar as caixas térmicas, lonas, utensílios de cozinha e sacos de dormir. Foi exatamente nesse momento que o nosso “fominha” agiu. Sem dar uma única palavra ou oferecer ajuda, saltou da canoa com sua vara montada e caminhou passos largos em direção ao melhor ponto do rio. Enquanto nós nos desdobrávamos debaixo de um sol escaldante para estruturar a nossa estadia, ele já fazia seus arremessos, completamente cego e indiferente ao esforço coletivo.

E a falta de espírito comunitário não parou por aí.

Na manhã seguinte, após o café, o sujeito simplesmente se levantou da mesa improvisada e largou tudo aberto: o lata de leite em pó destampada, o pão exposto, a manteiga derretendo ao sol e os restos de alimentos espalhados pela bancada. Bastaram poucos minutos de distração da turma para que surgisse um cachorro caramelo — provavelmente vindo de algum sítio vizinho. O animal deitou e rolou: comeu o que pôde, espalhou comida pela areia e comprometeu boa parte dos mantimentos essenciais para os dias seguintes.

A cena gerou uma onda automática de indignação.

O clima, que deveria ser marcado pelo companheirismo e por boas gargalhadas, pesou imediatamente. O descontentamento tomou conta do grupo de tal forma que chegamos a uma triste e inevitável conclusão: não valia mais a pena continuar ali. O que era para ser uma jornada inesquecível de três dias chegou ao fim de forma precoce, e antecipamos o retorno para casa com um amargo sentimento de frustração.

Desde aquele dia, sempre que recebo um convite para arrumar as tralhas e cair na estrada, a primeira imagem que me vem à mente não é a beleza espelhada das águas, tampouco a força do peixe brigando na ponta da linha.

A primeira coisa em que penso é no “fominha”.

Aprendi, definitivamente, que uma pescaria memorável não depende da abundância do rio ou do peso do troféu fisgado. Depende, acima de tudo, da qualidade da alma dos companheiros que escolhemos para dividir o acampamento, o fardo do trabalho e, principalmente, as boas histórias que permanecerão vivas, mais tarde, às margens da nossa memória.