Brasiléia, Meu Lugar no Tempo

Joao Evangelista
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colunista: Além da Manchete: Por João Evangelista

Dezembro de 2021 carregava um significado especial. Depois de quase dois anos em que a pandemia da Covid 19 havia mudado a rotina do mundo, a vacinação avançava rapidamente. O Brasil já alcançava quase 90% da população com a primeira dose e cerca de 79% com o esquema vacinal completo. Aos poucos, a vida voltava a respirar. As cidades recuperavam seu movimento, as famílias voltavam a se abraçar e as estradas deixavam de ser apenas caminhos para se tornarem pontes entre saudades.

Talvez por isso aquele dezembro tenha despertado em nós um desejo antigo: voltar para casa. Não apenas para visitar parentes, mas para reencontrar um pedaço da nossa própria história.

Eu e minha esposa, Kelly, morávamos em Rio Branco, onde construímos nossa vida e criamos nossa família. Em Brasiléia, porém, continuavam morando meu pai e um dos meus irmãos o Hélder. Era motivo mais que suficiente para colocar algumas roupas no carro, deixar nossos filhos João Ricardo e Lucas Alexandre na capital e, logo na manhã de sábado, 4 de dezembro, seguir pela BR 317, rumo ao nosso torrão natal.

Viajar para Brasiléia nunca foi apenas percorrer pouco mais de duzentos quilômetros. Era revisitar lembranças que permaneciam intactas, apesar da passagem do tempo. A cada curva da estrada parecia que a infância ia voltando ao encontro da gente.

Chegamos por volta do meio dia e seguimos direto para a Churrascaria do Braz. Além de saborear um bom almoço, queríamos acertar os últimos detalhes da confraternização do grupo de mountain bike (Alto Acre), marcada para aquela noite.

Era dezembro, mês em que Brasiléia ganha um brilho diferente. As luzes natalinas transformavam a cidade e, como sempre acontecia, meus olhos eram inevitavelmente atraídos para a Rua das Palmeiras. Desde menino, aquela rua representa uma das mais belas paisagens guardadas na memória. Sempre que volto, tenho a impressão de que o tempo faz uma pausa e me permite reencontrar o garoto que um dia caminhou por ali.

À noite aconteceu nossa confraternização.

Como toda boa reunião de amigos, sobraram risadas, histórias e comida. Aliás, se existe um grupo que sabe apreciar um bom churrasco é o pessoal do pedal. Era uma turma daquelas que faz qualquer encontro valer a pena: Tiãozinho, Tora (Sanches), o mestre encarregado de deixar as “magrelas” sempre prontas para a estrada, Roberto Abreu, Braz, Ely, Natinho, Mael, Patrícia, Elton, Mardokeu e tantos outros companheiros que, ao longo dos anos, se transformaram quase em uma segunda família.

No fim da festa ainda houve sorteio de brindes, mas o maior presente era, sem dúvida, poder estarmos todos juntos outra vez, depois de um período tão difícil para o mundo inteiro.

No domingo, atendendo ao convite dos irmãos Ribeiros, Pojucan, Messias e Urusanga, seguimos logo cedo para a chácara da família. Antes, passei na casa do meu pai, Seu Vanjú, que fez questão de nos acompanhar.

Lá também nos esperavam os amigos Laurinda e Adailson Bibiano. Adailson, como sempre, era um espetáculo à parte. Dono de um repertório inesgotável de causos, fazia qualquer roda de conversa esquecer das horas. Brincávamos dizendo que era um verdadeiro “executivo de fronteira” no ramo dos derivados de petróleo. As gargalhadas eram inevitáveis.

A chácara era um convite à contemplação. Muito bem cuidada, cercada por plantações de milho, mandioca e árvores frutíferas, exibia mangueiras carregadas, generosas como só o interior sabe ser naquela época do ano. À beira do barranco, o Rio Acre seguia seu curso silencioso, levando suas águas adiante enquanto parecia guardar, em cada curva, lembranças de gerações inteiras que cresceram observando aquele mesmo cenário.

Havia algo de profundamente reconfortante naquele lugar. O cheiro da terra, o canto dos pássaros, a sombra das árvores e o barulho das águas formavam uma paisagem que nenhum retrato conseguiria reproduzir por completo.

À noite, outro ritual que jamais poderia faltar.

O destino era o mirante da Rua Prefeito Rolando Moreira, ponto de encontro do tradicional “Senadinho”. Quem passasse por ali talvez enxergasse apenas um grupo de amigos conversando. Nós víamos muito mais do que isso. Era uma verdadeira sessão permanente sobre os acontecimentos da cidade, onde política, histórias antigas, novidades, lembranças e boas risadas dividiam espaço com o vento que soprava do rio.

Ali estavam Adailson, Braz, Messias, Pojucan, Bispo, nosso inesquecível Manoel Pintado, hoje apenas na saudade, Paci e, vez ou outra, meu irmão Roberto, quando os negócios o traziam à cidade. Meu pai, Seu Vanjú, permanecia quase sempre em silêncio, ouvindo atentamente cada conversa, enquanto Epaminondas Rodrigues, no momento mais inesperado, soltava uma observação espirituosa que arrancava risadas de todos.

Cada um daqueles amigos ajudou, à sua maneira, a escrever um capítulo da história de Brasiléia. Alguns já partiram, outros continuam presentes, mas todos permanecem vivos na memória daqueles que tiveram o privilégio de compartilhar esses encontros.

Na manhã de segunda feira, antes mesmo de o sol ganhar força, era hora de pegar novamente a estrada de volta para Rio Branco.

Voltávamos para casa levando muito mais do que malas. Levávamos abraços renovados, conversas que pareciam interrompidas apenas no dia anterior, o sorriso tranquilo de meu pai, o carinho dos amigos e a certeza de que algumas raízes jamais deixam de nos chamar.

Afinal, o tempo passa para todos, as cidades mudam, as pessoas envelhecem, mas existe um lugar dentro de cada um de nós onde a infância permanece intacta. Para mim, esse lugar sempre atenderá pelo nome de Brasiléia.