colunista: Prof. Msc. João Evangelista
Desde o início de 2026, o agronegócio brasileiro enfrenta uma barreira inédita no seu principal destino comercial. Pela primeira vez em décadas, Pequim impôs salvaguardas rigorosas à carne bovina importada, estabelecendo cotas por país e aplicando uma sobretaxa de 55% para os volumes que ultrapassarem o limite. A medida, motivada por alegados “prejuízos graves” à pecuária doméstica chinesa, tem validade de três anos — até o fim de 2028.
As recentes medidas tarifárias adotadas pela China representam mais um movimento na crescente reorganização do comércio global. Embora o foco imediato esteja em setores específicos, como a carne bovina, seus efeitos se espalham por toda a cadeia produtiva brasileira e reforçam um cenário em que exportadores, governo e investidores precisam lidar com um ambiente internacional cada vez mais complexo.
O que parecia um ajuste técnico rapidamente se converteu em um problema crítico para o Brasil. Embora o país tenha recebido a maior fatia do teto de importação — 1,1 milhão de toneladas para 2026 —, a cota já nasceu defasada: o volume é 27% inferior ao que os frigoríficos brasileiros já haviam embarcado para a China até novembro do ano anterior.
O resultado não demorou a aparecer. Em julho, dados da Secex analisados pela consultoria Safras & Mercado confirmaram o esgotamento total da cota com tarifa preferencial. Na prática, qualquer lote enviado à China a partir dali passou a carregar uma tributação pesada de 67% — somando o imposto normal de 12% à nova sobretaxa.
O tamanho do prejuízo e a reação do governo
O baque financeiro no campo é expressivo. Estimativas da Abiec e da CNA indicam que as restrições chinesas podem drenar até US$ 3 bilhões (cerca de R$ 16,5 bilhões) das receitas do setor apenas em 2026.
No governo, contudo, o discurso é de cautela. O secretário de Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, minimizou os impactos e rechaçou cenários de pânico. Segundo ele, a decisão de Pequim era prevista e o país já vinha se preparando ao abrir frentes alternativas de exportação em mercados como Filipinas e Indonésia.
Palco eleitoral e pátios lotados
A crise comercial rapidamente transbordou para a política doméstica. Em pleno ano eleitoral, a oposição usou a sobretaxa como munição contra o Palácio do Planalto. O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro responsabilizou o governo federal por falta de habilidade diplomática nas negociações e acenou com a abertura de canais próprios com autoridades chinesas para tentar reverter as restrições.
Já no setor produtivo, a atmosfera é de resignação. Sem negociações em andamento entre os governos para rever os tetos de importação, grandes frigoríficos começaram a conceder férias coletivas para conter o acúmulo de estoques sem saída rápida.
IMPACTO NO SETOR (ESTIMATIVA 2026) |
• Perda estimada em receitas: US$ 3 bilhões (~R$ 16,5 bi) |
• Cota anual esgotada: Em meados de julho |
• Tarifa após estouro da cota: 67% (12% base + 55% sobretaxa) |
Um “tarifaço” em duas frentes
A barreira imposta pela China não ocorre no vácuo. Ela coincide com uma ofensiva protecionista vinda dos Estados Unidos, que taxaram em 50% uma série de produtos brasileiros. A justificativa de Washington cita desdobramentos políticos do julgamento de Jair Bolsonaro, embora setores estratégicos — como aeronaves civis, suco de laranja, ferro-gusa e celulose — tenham ficado de fora da lista americana.
O momento marca uma onda global de protecionismo em reação às pressões da Casa Branca. Países como México e China passaram a erigir barreiras sob a justificativa de proteger suas indústrias nacionais. Enquanto a medida chinesa mira no filé mignon da pecuária, as restrições mexicanas já atingem 15% das vendas brasileiras ao país, com alíquotas que variam de 5% a 55%. Especialistas em comércio internacional apontam a contradição: o discurso crítico ao protecionismo perde apelo quando os próprios críticos adotam as mesmas práticas.
China: parceira comercial e concorrente no horizonte
Apesar do aperto na carne bovina, a China continua sendo a principal válvula de escape para amortecer as perdas no mercado americano. Em janeiro de 2026, as vendas brasileiras para os chineses somaram US$ 6,47 bilhões — alta de 17,35% em relação ao ano anterior —, ao passo que as exportações para os EUA despencaram 25,54% no mesmo período.
No acumulado do primeiro semestre, o avanço das vendas para China, Europa e Índia gerou R$ 16,1 bilhões adicionais ao país — mais de seis vezes o valor perdido no comércio com os norte-americanos. Esse desempenho embasa a resistência do governo brasileiro às exigências de Washington por concessões em temas sensíveis, como o Pix e o mercado de etanol.
O alerta dos analistas: A China não conseguirá absorver todo o excedente gerado pelas sanções americanas. A desaceleração da economia chinesa e os diferentes padrões de consumo travam um crescimento acelerado da demanda. Mais do que isso: Pequim tende a priorizar seus próprios interesses e pode passar a competir diretamente com o Brasil em mercados terceiros.
O jogo geopolítico de fundo
Por trás das disputas alfandegárias reside uma pressão geopolítica ainda maior: a tentativa dos Estados Unidos de afastar o Brasil da esfera de influência chinesa.
Documentos atribuídos ao governo Trump indicam que o alívio das tarifas americanas contra o Brasil estaria condicionado a restrições sobre investimentos de Pequim em mineração, refino e minerais críticos no país. Washington exige ainda a zeragem de tarifas brasileiras para etanol, jatos comerciais, veículos e insumos químicos vindos dos EUA.
O Brasil se vê, assim, no centro de uma queda de braço entre as duas maiores potências do planeta:
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Os Estados Unidos pressionam por alinhamento geopolítico e concessões comerciais.
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A China protege sua pecuária local ao mesmo tempo em que consolida sua posição como maior comprador de commodities brasileiras.

