Inadimplência empresarial bate recorde e revela o peso dos juros sobre empresas brasileira

Joao Evangelista
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Colunista: Prof. Me. João Evangelista

Um levantamento da Serasa Experian revela um cenário preocupante para o setor empresarial brasileiro: mais de 9,1 milhões de CNPJs estão inadimplentes no país. As dívidas acumuladas até junho de 2026 somam R$ 232,9 bilhões em volume financeiro, o maior valor registrado desde o início da série histórica, em 2016.

O montante representa uma alta de 16,67% em relação ao mesmo mês de 2025, evidenciando o agravamento das dificuldades financeiras enfrentadas pelas empresas. Os dados ganharam destaque na CNN Brasil e reforçam a percepção de que o ambiente econômico permanece desafiador para o setor produtivo.

Os números por trás da média nacional ajudam a dimensionar o problema. Segundo o indicador, cada CNPJ inadimplente carrega em média R$ 25.508,96 em dívidas, distribuídas em 7,3 contas em atraso, com ticket médio de R$ 3.515,77 por pendência. Isso indica que não se trata de calotes concentrados em poucas obrigações, mas de um endividamento pulverizado e crônico, sintoma de empresas que perderam fôlego de caixa ao longo de vários meses.

O peso da crise recai desproporcionalmente sobre os pequenos negócios: 8,6 milhões dos CNPJs negativados são micro e pequenas empresas, que concentram R$ 201,4 bilhões em dívidas — praticamente 86% do total. Esse recorte reforça um padrão conhecido da economia brasileira: pequenos empreendedores têm acesso a crédito mais caro, menor margem de negociação com bancos e fornecedores, e menos reservas para atravessar ciclos de juros altos, o que os torna o “elo mais fraco” quando o crédito se contrai. CNN Brasil

Regionalmente, a inadimplência acompanha o peso econômico dos estados: São Paulo lidera com 3.126.658 empresas negativadas, seguido por Minas Gerais (907.558) e Rio de Janeiro (874.385), com Paraná e Rio Grande do Sul completando o topo do ranking. Isso sugere que o problema não é regionalizado ou setorial isolado, mas um fenômeno estrutural que acompanha a distribuição do próprio tecido empresarial brasileiro — quanto mais empresas, proporcionalmente mais inadimplência em termos absolutos.

Para a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, o dado mais intrigante é que a inadimplência segue subindo mesmo com o Banco Central já tendo iniciado cortes na Selic. Segundo ela, isso ocorre porque as condições financeiras continuam bastante restritivas, com juros ainda elevados em termos históricos. Na prática, o alívio monetário ainda não chegou ao caixa das empresas: entre março e agosto, a Selic recuou apenas de 15% para 14% ao ano — um corte tímido diante do patamar de dois dígitos mantido desde 2022. Perfil News

Essa defasagem entre o início do ciclo de queda de juros e a melhora efetiva das condições de crédito é um padrão clássico em análise macroeconômica: as taxas de mercado (empréstimos, financiamentos, capital de giro) demoram a refletir cortes na taxa básica, e o estoque de dívidas contraídas no pico dos juros continua pressionando o caixa das empresas por meses ou até anos depois. Ou seja, mesmo que a Selic continue caindo, o efeito sobre a inadimplência tende a ser gradual, não imediato.

Abdelmalack também associa o quadro empresarial ao endividamento das famílias — o Brasil fechou julho com 83,9 milhões de pessoas inadimplentes, alta de 0,23% em relação ao mês anterior. Essa conexão é relevante: consumidores endividados consomem menos e atrasam pagamentos a fornecedores e prestadores de serviço, criando um efeito cascata que retroalimenta a inadimplência das empresas, especialmente no varejo e nos serviços — setor que, segundo a Serasa, responde por 55,7% dos casos. Correio Braziliense

Casas Bahia: quando a crise atinge as grandes empresas

A combinação entre juros elevados, crédito mais restrito e aumento das despesas financeiras começa a produzir efeitos também entre grandes companhias. O exemplo mais emblemático é o grupo Casas Bahia, que ingressou com pedido de recuperação judicial — medida já aprovada pelo conselho da companhia e que também envolve outras empresas ligadas ao grupo, com uma dívida da ordem de R$ 17,3 bilhões.

Em comunicado, a empresa informou que a decisão foi motivada pela deterioração das condições financeiras e pelo agravamento do cenário macroeconômico. O grupo registrou prejuízo de R$ 10 bilhões no segundo trimestre deste ano, resultado aproximadamente 18 vezes superior ao registrado no mesmo período do ano passado.

A Casas Bahia atribuiu o desempenho negativo a um ambiente macroeconômico considerado desafiador, marcado por taxas de juros elevadas, restrição de crédito e aumento dos custos financeiros. O caso da varejista é significativo por dois motivos: primeiro, evidencia que a pressão não se limita às pequenas e médias empresas e já alcança grandes grupos com atuação nacional e milhares de empregos diretos e indiretos; segundo, funciona como um sinalizador de risco sistêmico — quando uma companhia desse porte recorre à recuperação judicial, o mercado de crédito tende a reagir com mais cautela também para outras varejistas e fornecedores da cadeia, num efeito de contágio de confiança.

Um alerta que ultrapassa o balanço das empresas

O avanço da inadimplência empresarial acende, portanto, um sinal de alerta para a economia brasileira. Quando empresas encontram dificuldades para honrar seus compromissos, os efeitos ultrapassam o balanço das companhias e podem atingir fornecedores, trabalhadores, consumidores e toda a cadeia produtiva. Na prática, isso se traduz em: atrasos de pagamento que se propagam entre fornecedores (o chamado “efeito dominó” na cadeia de suprimentos); maior seletividade dos bancos na concessão de crédito, o que encarece ainda mais o financiamento para quem mais precisa dele; e risco de desaceleração no investimento produtivo, já que empresas endividadas tendem a postergar expansão, contratação e modernização.

Vale notar que o cenário de crédito, apesar de restritivo, não é de colapso generalizado: dados do Banco Central mostram que o estoque total de crédito no país continua crescendo em termos nominais, puxado tanto pelo crédito às famílias quanto às empresas. Isso sugere um quadro de “seletividade”, e não de escassez total — bancos seguem emprestando, mas a um custo que penaliza desproporcionalmente empresas menores e mais alavancadas, aprofundando a desigualdade de acesso ao crédito entre grandes e pequenos negócios.

O cenário também coloca em evidência um dos principais desafios da economia brasileira: encontrar um equilíbrio entre o combate à inflação e a necessidade de oferecer condições de crédito capazes de sustentar investimentos, consumo e atividade empresarial. Esse é o clássico trade-off da política monetária — juros altos ajudam a conter a inflação, mas o fazem justamente ao encarecer o crédito e desestimular o consumo e o investimento, o que, em excesso, pode empurrar empresas frágeis para a inadimplência e a recuperação judicial.

Do lado governamental, já há sinalizações de resposta: o Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte tem apontado programas de renegociação de dívidas como parte da estratégia para aliviar a pressão sobre os pequenos negócios, que são justamente os mais afetados pelo quadro atual.

Enquanto os juros permanecerem elevados e o crédito continuar restrito, a tendência é de que muitas empresas — sobretudo as de menor porte — sigam enfrentando dificuldades para recuperar sua saúde financeira. O ritmo do ciclo de cortes da Selic nos próximos meses será, portanto, a variável mais decisiva para saber se 2026 marcará o pico dessa crise de inadimplência ou apenas mais uma etapa de um problema ainda em expansão.