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Aposentadoria: entre o descanso, o amor e o chamado do “JAQUI!”

Aposentadoria: entre o descanso, o amor e o chamado do “JAQUI!”

colunista: Prof. Msc. João Evangelista

Uma reflexão bem-humorada sobre a vida depois do serviço público, a convivência a dois e as alegrias de ser avô.

Prof. Msc. João Evangelista

Outro dia, enquanto passeava por uma loja de departamentos, encontrei um professor que faz parte da mesma instituição onde trabalhei durante tantos anos, antes de me aposentar. Depois dos cumprimentos e daquela conversa amistosa entre antigos colegas, veio a pergunta que, aparentemente, acompanha todo aposentado:

— E aí, só curtindo a aposentadoria?

Sorri. A pergunta parecia simples, mas despertou em mim uma série de pensamentos. Afinal, o que significa realmente curtir a aposentadoria? Será que é apenas acordar sem compromisso, não precisar cumprir horários e ter o dia inteiro disponível? Ou será que existe uma vida bem diferente daquela que imaginamos quando ainda estamos na ativa?

Conversamos por alguns minutos, relembramos algumas coisas e seguimos nossos caminhos. Mas aquela pergunta ficou comigo. No trajeto de volta, comecei a pensar na minha própria rotina, na convivência com minha esposa, nas pequenas descobertas dessa nova fase e, principalmente, nas alegrias de receber meu neto em casa.

Foi ali que nasceu a vontade de escrever esta crônica.

Iniciei minha trajetória no serviço público em 1º de abril de 1986. Foram décadas de trabalho, compromissos, horários a cumprir e responsabilidades que fizeram parte da minha rotina por tantos anos. Até que chegou o momento de encerrar esse ciclo. Depois de completar o tempo necessário para a aposentadoria, decidi que era hora de pendurar as chuteiras e começar uma nova etapa da vida.

Naquele momento, imaginei que a aposentadoria seria, sobretudo, a conquista da liberdade: acordar sem a obrigação de olhar para o relógio, desfrutar de mais tempo com a família e finalmente fazer as coisas no ritmo que a vida permitisse.

Mas eis que, já no secundo ano de aposentadoria, comecei a perceber que existe uma vida depois do trabalho — e que ela tem suas próprias regras, seus pequenos desafios e algumas surpresas que nenhum curso preparatório é capaz de ensinar.

Uma delas é a convivência diária a dois.

Quando se está na ativa, o trabalho ocupa boa parte do tempo. Há compromissos, reuniões, problemas para resolver e uma rotina que, de certa forma, organiza os dias. Depois da aposentadoria, porém, o cenário muda. O relógio continua funcionando, mas já não parece ter tanta autoridade sobre a vida. E aquilo que antes era apenas um detalhe passa a fazer parte da grande aventura cotidiana de um casal aposentado.

É aí que começam as descobertas.

  1. Acordar cedo, mas sem nenhuma pressa.

O corpo parece não ter recebido o comunicado oficial de que o expediente acabou. Acordo cedo, como sempre fiz durante décadas, mas agora não há ponto para bater, reunião para participar ou chefe esperando. O dia está inteiro à minha disposição. O curioso é que, mesmo com tanto tempo livre, às vezes passo alguns minutos tentando descobrir o que fazer com ele.

A liberdade, que durante tantos anos pareceu um sonho distante, agora está ali, diante de mim. Só que aprender a desfrutá-la também exige adaptação. Às vezes, sinto falta da movimentação do trabalho, das conversas com os colegas e até daquela sensação de ter uma agenda cheia. Não sinto falta necessariamente da correria, mas reconheço que o trabalho também fazia parte da minha identidade.

Hoje, preciso aprender que não ter compromissos profissionais não significa não ter propósito. A vida continua acontecendo, apenas em outro ritmo.

  1. O café da manhã e a conferência dos remédios.

Sentamos juntos à mesa, tomamos nosso café e, entre um gole e outro, surge a pergunta inevitável:

— Está acabando algum remédio?

Pronto! O romance da manhã ganha um capítulo farmacêutico. Conferimos as cartelas, olhamos as caixas e fazemos mentalmente a lista do que precisa ser comprado. Afinal, na aposentadoria, o cuidado com a saúde também passa a ocupar um lugar de destaque na agenda.

É curioso como as prioridades mudam. Antes, a preocupação era chegar ao trabalho no horário, resolver os problemas do dia e cumprir as responsabilidades. Agora, entre uma conversa e outra, falamos sobre consultas, exames, medicamentos e cuidados com o corpo.

Não é motivo para tristeza. É apenas a vida nos lembrando que o tempo passa e que precisamos cuidar melhor daquilo que nos permite continuar vivendo nossas histórias.

  1. Ir ao supermercado para comprar pão e voltar com uma sacola de ofertas.

A missão parecia simples: comprar pão e voltar para casa. Mas basta entrar no supermercado para que os planos mudem. Uma promoção chama a atenção, outra parece imperdível e, quando percebo, estou diante do caixa com produtos que nem sequer estavam na lista.

O pão, naturalmente, vem junto. Mas a sacola de ofertas também!

E, no caminho de volta, ainda ouvimos aquela pergunta clássica:

— Será que precisávamos comprar tudo isso?

A resposta, quase sempre, é um silêncio acompanhado de um sorriso disfarçado.

A verdade é que a aposentadoria também nos transforma em especialistas em pesquisar preços, comparar ofertas e descobrir oportunidades de economia. O tempo que antes era consumido pelo trabalho agora permite observar detalhes que passavam despercebidos.

  1. Tirar uma soneca à tarde e reclamar da falta de sono à noite.

Depois do almoço, o sofá parece exercer uma força irresistível. A televisão fica ligada, o programa continua passando e os olhos começam a pesar. Quando percebo, já estou entregue àquela soneca que ninguém planejou, mas que parece fazer parte do regulamento informal da aposentadoria.

O problema aparece algumas horas depois, quando chega a noite.

Viro para um lado, depois para o outro. O sono desaparece, as conversas recomeçam e alguém acaba dizendo:

— Não sei por que estou sem sono!

Ora, talvez o mistério esteja justamente naquela sonequinha inocente da tarde.

São pequenas contradições dessa nova fase. Tenho mais tempo para descansar, mas às vezes não consigo dormir. Não preciso acordar cedo por obrigação, mas continuo despertando com os primeiros sinais da manhã. Parece que o relógio biológico ainda trabalha em regime de serviço público.

  1. Passar o dia inteiro juntos, implicar um com o outro e não conseguir ficar longe.

Talvez esta seja a parte mais interessante da vida a dois depois da aposentadoria.

Quando o casal passa a compartilhar praticamente todas as horas do dia, até as pequenas diferenças ganham espaço. Uma opinião sobre a comida, o volume da televisão, a maneira de organizar a casa ou o simples fato de alguém deixar um objeto fora do lugar podem render uma pequena discussão.

Às vezes, parece que falta assunto. Em outras ocasiões, parece que sobra convivência.

Minha esposa, por exemplo, desenvolveu uma maneira muito particular de me convocar para as tarefas domésticas. Basta chamar:

— JAQUI!

Já sei o que vem pela frente. A tradução é quase automática: “Já que tu não fazes nada…”

E lá vou eu trocar uma lâmpada, colocar o lixo para fora no dia da coleta ou resolver alguma pendência da casa. Tudo isso, naturalmente, interrompendo uma atividade importantíssima: assistir aos meus vídeos de pescaria.

A aposentadoria me deu liberdade, mas parece que minha esposa recebeu uma autorização especial para administrar meu tempo livre.

Brincadeiras à parte, essa convivência mais próxima também me fez perceber coisas que talvez a correria dos anos anteriores não permitisse enxergar com tanta clareza. O casamento, depois de tantos anos, ganha novos contornos. Estamos mais presentes um na vida do outro, compartilhamos mais momentos e também precisamos exercitar diariamente a paciência.

Há dias em que uma pequena discordância parece ganhar proporções maiores do que deveria. Mas também há momentos em que basta um olhar, um gesto de cuidado ou uma conversa despretensiosa para lembrar o quanto é importante ter alguém ao lado.

Aprendi que amar não significa concordar com tudo. Significa respeitar as diferenças, compreender os silêncios, dividir as responsabilidades e continuar escolhendo a companhia um do outro, mesmo quando as pequenas implicâncias aparecem.

No fundo, talvez o amor maduro esteja justamente nessas coisas simples: preparar o café, perguntar se está faltando algum medicamento, lembrar de uma consulta, dividir as compras e reclamar de uma tarefa que ficou para depois. São gestos cotidianos que, com o passar dos anos, revelam o verdadeiro significado de uma vida compartilhada.

  1. Esperar a visita do neto e descobrir que a energia dele não tem aposentadoria.

Se existe algo capaz de mudar completamente o ritmo da nossa casa, é a chegada do meu neto.

Com seus cinco anos, ele parece funcionar com duzentos e vinte volts. Quando chega, a tranquilidade da casa pede licença. É corrida para um lado, pulos na piscina, bicicleta para o outro, brincadeiras, perguntas e uma disposição que parece não ter fim.

Observo aquela energia toda e fico impressionado. Às vezes, penso que ele finalmente cansou. Mas basta uma pequena pausa, quinze minutos de descanso, e lá está ele novamente, pronto para começar tudo outra vez.

Eu, por minha vez, acompanho como posso. Entro nas brincadeiras, converso, dou atenção e procuro aproveitar cada instante. Nem sempre minhas pernas conseguem acompanhar o ritmo, mas o coração parece não sentir cansaço.

É uma alegria diferente. Receber meu neto é como abrir uma janela para um mundo de descobertas. Com ele, volto a enxergar a beleza das coisas simples, a espontaneidade das brincadeiras e a capacidade de transformar qualquer espaço em uma grande aventura.

Às vezes, enquanto o observo, penso na velocidade com que o tempo passa. Parece que foi ontem que outras fases da minha vida começaram, e agora estou aqui, acompanhando o crescimento de uma nova geração. Quero aproveitar esses momentos, participar de suas descobertas e construir lembranças que ele possa levar consigo quando crescer.

Talvez seja uma das maiores recompensas dessa fase: ter mais disponibilidade para estar presente na vida de quem amamos.

Mas existe um detalhe que ainda não consegui resolver: quando meu neto vai embora, a casa parece ficar grande demais.

O silêncio volta a ocupar os cômodos. Os brinquedos ficam parados, as corridas terminam e o movimento que há pouco parecia excessivo faz falta. Meu corpo agradece o descanso, mas o coração já começa a sentir saudade.

É uma sensação curiosa: durante a visita, às vezes desejo alguns minutos de tranquilidade; depois que ele vai embora, gostaria que tivesse ficado mais um pouco.

Olho para minha esposa e percebo que, de alguma maneira, compartilhamos esse sentimento. A casa volta à rotina, mas fica uma espécie de vazio temporário, acompanhado da expectativa pela próxima visita.

É quando entendo que o tempo com os netos não deve ser medido pelo cansaço que deixam, mas pela alegria que trazem. Eles crescem depressa, e cada visita é uma oportunidade que não volta exatamente da mesma maneira.

E, afinal, estou apenas curtindo a aposentadoria?

Depois daquele encontro na loja de departamentos, fiquei pensando bastante nessa pergunta do meu antigo colega.

A resposta é que sim, estou curtindo. Mas não exatamente como imaginava.

Estou aprendendo a viver sem a obrigação dos horários profissionais, a encontrar satisfação nas pequenas tarefas, a conviver mais intensamente com minha esposa e a valorizar os momentos em família. Estou descobrindo que a aposentadoria não é uma ausência de compromissos, mas uma oportunidade de escolher melhor onde colocar meu tempo e minha atenção.

Também reconheço que essa fase traz suas inquietações. Há momentos em que sinto falta da rotina profissional, dos colegas, das conversas e daquela sensação de pertencimento que o trabalho proporcionava. Em outros, percebo que a vida me oferece algo que durante muitos anos desejei: a possibilidade de acompanhar mais de perto as pessoas que amo.

Não quero romantizar a aposentadoria. Ela exige adaptação, paciência e, acima de tudo, disposição para compreender que uma parte importante da nossa identidade não precisa desaparecer quando encerramos a carreira.

Foram décadas de trabalho. Construí uma história profissional da qual me orgulho. Mas minha vida não se resume ao serviço público, aos compromissos cumpridos ou aos anos dedicados à instituição. Ela continua na convivência com minha esposa, no cuidado com a saúde, nas conversas despretensiosas, nos vídeos de pescaria e, principalmente, na alegria de ver meu neto entrar pela porta de casa.

Hoje, percebo que pendurar as chuteiras não significa sair de campo. Significa mudar o ritmo da partida, compreender que não precisamos mais correr o tempo inteiro e aprender a valorizar cada momento.

E talvez a resposta mais sincera à pergunta daquele professor seja esta:

— Estou curtindo, sim! Mas descobri que a aposentadoria tem café da manhã, remédios, supermercado, tarefas domésticas, pequenas discussões, vídeos de pescaria e um neto de duzentos e vinte volts que aparece para renovar nossas energias.

No fim das contas, a vida continua. Minha esposa continua ao meu lado, com suas cobranças e seu jeito particular de demonstrar que ainda precisa de mim. Meu neto continua crescendo, e eu continuo tentando acompanhar suas aventuras. E eu sigo aprendendo a aproveitar o tempo que tenho, sem a pressa de antes, mas com a consciência de que cada dia merece ser vivido.

Afinal, depois de tantos anos trabalhando para construir uma história, chega o momento de desfrutar aquilo que realmente importa: a saúde, a família, o amor e a presença de quem escolheu caminhar ao nosso lado.

A carreira pode chegar ao fim, mas o amor não se aposenta. A convivência continua em tempo integral, e a vida, felizmente, ainda tem muito a nos ensinar.

E você, que já pendurou as chuteiras ou está se preparando para essa fase, também descobriu que a aposentadoria tem suas próprias surpresas?

Porque, pelo que estou aprendendo, a gente deixa de trabalhar por obrigação, mas nunca deixa de ter motivos para viver, cuidar, amar e, de vez em quando, ouvir um sonoro:

— JAQUI!