colunista: Prof. Me. João Evangelista
Há momentos em que a diplomacia exige silêncio, prudência e capacidade de diálogo. Há outros em que a neutralidade deixa de ser virtude e passa a ser interpretada como ambiguidade.
É nesse território delicado que a política externa do governo Lula parece caminhar diante da guerra da Rússia contra a Ucrânia.
A proposta brasileira de buscar uma solução negociada para o conflito e a criação do chamado grupo “Amigos da Paz” podem ser apresentadas como iniciativas legítimas de diálogo. Afinal, negociar é sempre preferível a prolongar uma guerra. O problema não está na defesa da paz. Está na percepção de que Brasília tenta colocar no mesmo plano atores que ocupam posições muito diferentes no conflito.
O peso das palavras
A China é hoje um dos principais parceiros estratégicos da Rússia. Pequim não aparece necessariamente no campo de batalha, mas mantém relações econômicas, comerciais e tecnológicas que ajudam Moscou a preservar sua capacidade de sustentar a guerra.
Esse contexto torna particularmente difícil convencer governos europeus de que a China poderia exercer o papel de mediador completamente neutro.
E aqui surge uma pergunta incômoda:
Como construir uma paz duradoura sem reconhecer claramente quem invadiu quem?
A linguagem diplomática também importa. Quando se fala simplesmente em uma “guerra entre Rússia e Ucrânia”, cria-se uma aparente simetria entre dois países que não partiram da mesma posição. Em fevereiro de 2022, a Rússia iniciou uma invasão em larga escala do território ucraniano.
Esse fato não elimina a necessidade de compreender as causas históricas e geopolíticas do conflito. É perfeitamente legítimo discutir a expansão da OTAN, os interesses das grandes potências, as responsabilidades políticas e os caminhos possíveis para uma negociação.
Mas compreender as causas de uma guerra não significa apagar sua origem.
O QUE ESTÁ EM JOGO
Paz não significa ausência de princípios. Uma negociação duradoura exige reconhecer a existência de regras internacionais e estabelecer parâmetros mínimos para que a diplomacia não se transforme apenas em instrumento de conveniência geopolítica.
O Brasil sempre reivindicou um papel de mediador, defensor do diálogo e do multilateralismo.
Essa é uma posição legítima. O problema aparece quando os mesmos princípios parecem receber tratamentos diferentes conforme o país envolvido. Soberania não pode ser uma palavra utilizada apenas quando interessa. Democracia também não.
O respeito à autodeterminação dos povos não pode depender da ideologia do governo que está no poder. Se a comunidade internacional deve respeitar a soberania de Cuba, Venezuela, Ucrânia, Rússia ou qualquer outro país, esse princípio precisa ser universal. Não seletivo.
O verdadeiro multilateralismo pressupõe regras comuns. Se um princípio vale para um país, deve valer para outro. Se a invasão territorial é condenável em uma circunstância, deve ser condenável em outra. É justamente essa coerência que sustenta a credibilidade de uma política externa.
Autonomia não é ambiguidade. A autonomia diplomática brasileira é um ativo importante. O Brasil não precisa escolher entre Washington, Pequim, Moscou ou qualquer outra capital para exercer influência internacional. Pode conversar com todos. Pode negociar com todos. Pode defender seus próprios interesses.
Mas autonomia não significa neutralidade diante de qualquer situação. E neutralidade não pode significar relativização de princípios.
O risco para o Brasil está justamente aí. Ao tentar ocupar simultaneamente o espaço de interlocutor do Ocidente, parceiro estratégico da China e interlocutor de países que desafiam a ordem internacional estabelecida, Brasília pode acabar transmitindo mensagens diferentes para públicos diferentes.
Para uns, pragmatismo. Para outros, ambiguidade. Para outros ainda, alinhamento seletivo.
A pergunta não é se o Brasil deve conversar com todos.
A pergunta é se consegue conversar com todos sem abrir mão de princípios que pretende defender internacionalmente.
O Brasil possui uma tradição diplomática respeitada justamente porque, historicamente, soube combinar diálogo, previsibilidade e defesa de seus interesses. Seu patrimônio internacional não está apenas no tamanho do território, na força de sua economia ou na dimensão de sua população. Está também na capacidade de ser ouvido.
E credibilidade diplomática, assim como confiança, leva décadas para ser construída — mas pode ser desgastada rapidamente. O Brasil tem condições de exercer um papel relevante na construção de soluções diplomáticas para conflitos internacionais. Mas esse protagonismo será mais respeitado quanto mais clara for a distinção entre negociar com todos e relativizar princípios.
O país pode defender a paz sem ignorar a responsabilidade pela agressão. Pode dialogar com a China sem assumir suas posições. Pode conversar com a Rússia sem aceitar suas ações. Pode manter relações com governos de diferentes orientações políticas sem abandonar seus próprios valores democráticos.
Essa talvez seja a verdadeira autonomia diplomática: ter portas abertas para todos, mas não abrir mão dos princípios que sustentam a própria casa.
CONCLUSÃO | ALÉM DA MANCHETE
No fim das contas, a discussão sobre a Ucrânia vai muito além de Lula, Putin, Zelensky, Biden, Xi Jinping ou qualquer outro líder.
Ela envolve uma questão maior: que tipo de país o Brasil quer ser no mundo?
Um país que procura ser ponte entre diferentes interesses — ou um país que, para ser ponte, acaba evitando dizer onde estão as margens?
O Brasil tem tamanho, história e legitimidade para desempenhar um papel internacional relevante. Mas protagonismo não se constrói apenas com discursos de paz, encontros diplomáticos ou fotografias ao lado de grandes líderes.
Constrói-se com coerência. A diplomacia brasileira não precisa escolher um lado entre grandes potências. Precisa escolher princípios. Porque dialogar com todos é uma virtude.
Mas defender regras universais é o que transforma diálogo em credibilidade. Mais do que acompanhar o que os governos dizem, é preciso observar o que suas escolhas significam. Porque, muitas vezes, a verdadeira notícia começa justamente onde termina a manchete.