Entre avanços e desafios: o retrato da edu-cação no Alto Acre

Educação
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colunista: Prof. Msc. Adm. João Evangelista

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), principal termômetro da qualidade do ensino público no Brasil, revela um cenário de contrastes, resiliência e grandes desafios para os municípios de Brasiléia e Assis Brasil, na região do Alto Acre. Após o forte impacto da pandemia de Covid-19, que desestruturou o calendário escolar em todo o país, as duas cidades fronteiriças vivem momentos distintos na busca pela recomposição da aprendizagem de seus alunos.

Os dados dos últimos quatro ciclos de avaliação (2017, 2019, 2021 e 2023) mostram que, enquanto Brasiléia dá sinais de uma recuperação mais sólida, Assis Brasil enfrenta barreiras geográficas e sociais que tornam a evolução dos índices mais lenta.

Brasiléia: Resiliência e Retomada Gradual

Antes da crise sanitária global, Brasiléia vinha em uma linha ascendente. Entre 2017 e 2019, o município consolidou seus melhores índices, impulsionado por políticas eficientes de alfabetização, fortalecimento da rede municipal e melhoria nas taxas de aprovação. O movimento acompanhou o sucesso do estado do Acre, que em 2019 alcançou a marca de 6,2 nos anos iniciais do Ensino Fundamental — um dos destaques da Região Norte.

O tombo veio em 2021. Com as aulas presenciais suspensas, barreiras no ensino remoto e a baixa conectividade nas zonas rural e periférica, o rendimento escolar despencou.

No entanto, o balanço de 2023 acendeu um sinal de esperança. Graças a programas de reforço escolar, ao retorno integral dos estudantes às salas de aula e a um acompanhamento pedagógico intensificado, Brasiléia iniciou uma recuperação parcial e demonstra ter uma estrutura educacional mais resiliente para alcançar novamente os patamares pré-pandemia.

Assis Brasil: O Peso da Vulnerabilidade e a Realidade da Fronteira

Se em Brasiléia a estrutura urbana ajuda na retomada, em Assis Brasil a realidade é mais complexa. Com uma população menor, dispersão geográfica acentuada e a presença de comunidades rurais e indígenas isoladas, o município convive com limitações estruturais severas.

Os dados do IDEB 2023 deixam claro onde estão os gargalos:

Etapa de Ensino

IDEB 2023

Anos Iniciais (1º ao 5º ano)

5,1

Anos Finais (6º ao 9º ano)

4,0

Ensino Médio

3,8

O ponto forte da cidade continua sendo os anos iniciais. O foco na alfabetização e a menor evasão nessa faixa etária garantiram a nota 5,1. Ainda assim, o índice ficou abaixo da média estadual do Acre, que é de 5,8.

A situação se agrava à medida que o aluno avança na vida escolar. As notas do 6º ao 9º ano (4,0) e do Ensino Médio (3,8) acendem o alerta vermelho. Elas refletem problemas crônicos como a distorção idade-série, o baixo desempenho em matemática e a evasão escolar, frequentemente motivada por dificuldades socioeconômicas típicas de regiões fronteiriças. O município ainda registra oscilações e quedas de rendimento em escolas específicas quando comparadas ao ano de 2019, provando que as feridas da pandemia continuam abertas.

O Raio-X do Alto Acre: O que Une os Dois Municípios?

Apesar das diferenças de infraestrutura, Brasiléia e Assis Brasil partilham de dores comuns impostas pela geografia e pelo contexto social. A vulnerabilidade socioeconômica, o déficit de conectividade, a escassez de professores especializados e a alta mobilidade populacional — característica de cidades de fronteira — são obstáculos diários para gestores e educadores.

Os Desafios em Comum:

  • Evasão escolar e dificuldades logísticas de transporte.

  • Defasagem crônica de aprendizagem em matemática e leitura.

  • Impacto direto de problemas sociais fronteiriços no cotidiano escolar.

O Caminho do Futuro: O que Esperar dos Próximos Ciclos?

Especialistas apontam que o futuro do IDEB na região dependerá diretamente da continuidade de investimentos estratégicos. Para os próximos anos, a receita para mudar o jogo envolve o fortalecimento da alfabetização na idade certa, a ampliação das escolas em tempo integral, o investimento na formação de professores e a criação de mecanismos que segurem o jovem na escola durante os anos finais e o ensino médio.

Se as políticas públicas forem mantidas, a tendência é que Brasiléia consolide sua curva de crescimento rumo às médias estaduais. Já Assis Brasil exigirá um olhar diferenciado do Estado, com ações focadas e de caráter urgente para reduzir as desigualdades e garantir que nenhuma criança ou jovem seja deixado para trás na fronteira do país.