Zé Gabriel: o legado de um homem de valor

ICONES DE BRASILÉIA E EPITACIOLANDIA POR IVANA CRISTINA
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colunista: Ivana Cristina
Colaboração: Cosma Gabriel (filha)
Ícones de Brasileia e Epitaciolandia Volume II

José Maria Gabriel nasceu em 23 de fevereiro de 1934, em Pereiros, Ceará. Zé Gabriel, como era conhecido, carregava consigo a determinação de quem não teme o trabalho. Ainda jovem, saiu de sua terra, cruzou o país e veio para o Acre. Chegando em Brasileia, iniciou sua jornada de trabalho como “marreteiro”, sem saber que aquela terra, lhe daria muito mais que o sustento, daria uma missão e um grande amor.
Foi em meio a simplicidade de uma festa no seringal, que o destino agiu. Um convite para dançar foi o suficiente para unir Gabriel e a jovem Valquíria Marques Rodrigues. Embalados pelo som da música, a brisa da noite, o encanto da floresta e o brilho da lua, o amor floresceu.
O início dessa união foi marcado pelo gesto de honra que definiria o caráter de Gabriel. Ao decidir se casar com Valquíria, retornou a sua terra natal, para resolver pendências, mas prometeu que voltaria para casar.
A promessa foi cumprida em 07 de janeiro de 1966, quando casaram-se no civil e no religioso.
Valquíria tornou-se”Gabriel”, no nome e na alma, dando início a uma família que florescia com mais cinco filhos, totalizando seis vidas guiadas pelo exemplo do casal. Valquíria já tinha uma filha com seis meses de vida e Zé Gabriel, não só deu seu nome de pai como seu amor paterno.
Assim que casaram foram morar no seringal Santa Quitéria, colocação Sacado. A vida no seringal era difícil, muito trabalho e pouco retorno financeiro. Após um tempo, vieram morar na Colônia Nova Vida, que se localizava na proximidade de Brasileia.
A trajetória da família Gabriel não foi isenta de provações. Muitas foram as dificuldades financeiras enfrentadas ao longo dos anos, momento em que os recursos eram escassos, mas a vontade de vencer era muito maior. Mesmo diante das limitações, Gabriel e Valquíria mantinham um pacto silencioso de resiliência, nunca deixaram que a carência material diminuísse o esforço de oferecer o melhor para seus filhos: Maria do Socorro Rodrigues Gabriel, Maria Lúcia Rodrigues Gabriel, José Waldeyr Rodrigues Gabriel (in memorian), Maria do Carmo Rodrigues Gabriel, Maria Cosma Rodrigues Gabriel e Deusa Maria Marques Gabriel Oliveira Munhoz.
Cada centavo economizado e cada jornada dupla de trabalho, tinham um objetivo claro, garantir educação, saúde e um futuro digno para sua descendência.
A vida na zona rural exigia sacrifício físico e emocional. Mas, trouxe também em 1977, a inserção da sua esposa Valquíria no serviço público. Lotada no Hospital Raimundo Chaar e morando na zona rural, ela enfrentava o trajeto diário, a pé, muitas vezes de madrugada, para exercer sua profissão com dedicação, amor e responsabilidade.
Enquanto Zé Gabriel trabalhava com afinco nas atividades agrícolas, enfrentando sol e chuva.
Mas, a busca pelo conforto e estudo dos filhos e a proximidade com o trabalho de sua esposa, fizeram com que mudassem para a cidade e compraram uma casa em frente ao antigo hospital Raimundo Chaar. Zé Gabriel trabalhou em várias “frentes” de trabalho, sempre comunicativo, tornou-se uma figura querida no bar do senhor Chico Piranambu. Trabalhou e construiu amizades sólidas que o ajudaram a caminhar nos tempos difíceis.
Paralelamente, sua esposa Valquíria foi construindo sua história, pois seu destino ainda guardava um chamado maior. Ao ingressar no serviço público na área da saúde, encontrou na enfermagem um propósito que parecia já viver dentro dela. Tornou-se técnica de enfermagem, mas na prática era muito mais do que isso, era consolo em momentos difíceis, era palavra de esperança quando o medo dominava, era presença firme, quando a dor parecia insuportável.
Sua empatia com os pacientes era conhecida, principalmente com os que “vinham da roça”, pessoas simples, com receio e sem apoio. Encontravam em Valquíria um porto seguro. Sua casa sempre estava de portas abertas para receber os familiares dos doentes internados que não tinham “pouso” para ficar. Dormiam, comiam e descansavam em sua casa. E nos momentos mais delicados, quando um paciente partia
e não havia local para velar o corpo, ela oferecia sua casa para a realização do velório.
Sua residência se tornava um espaço de solidariedade , respeito e humanidade.
Sua história não é feita de grandes títulos ou riquezas materiais, mas de algo muito raro, uma vida inteira dedicada ao outro.
Ela exerceu sua profissão com altruísmo, uma mulher que fez da simplicidade sua grandeza e cuidado, uma linda missão.
Zé Gabriel tinha um desejo de construir um patrimônio para a família. Com muita luta conseguiu um lote de terra pelo programa do INCRA, na BR 317, km 17, ramal. Sozinho, ele abriu caminho na mata, com suas próprias mãos. Preparando o terreno com coragem e determinação. Posteriormente, Valquíria juntou-se a ele, atuando como professora na comunidade. O que levou mais uma vez, Valquíria a inserir no serviço público, desta vez, pela Prefeitura Municipal de Brasileia.
Aquele pedaço de terra, fruto do suor e persistência, tornou-se um refúgio da família durante as férias, onde a simplicidade dos momentos felizes compensava qualquer dificuldade vivida.
Uma das lembranças mais marcantes de Brasileia, envolve o bom humor de Gabriel. Proprietário de um cavalo que ele batizou de “Del Rey”, em homenagem ao carro mais famoso da época. Ele brincava dizendo que possuía o “carro do ano”. Sua maior alegria era colocar as crianças da vizinhança sobre o cavalo “Del Rey” para passear, transformando a rotina da rua em uma festa.
Sua generosidade era sua marca registrada. Fosse ajudando o vizinho ou no trabalho dedicado na garagem da Prefeitura. Gabriel nunca mediu esforços para estender a mão a quem precisasse sendo profundamente respeitado por toda comunidade.
Ao olhar para trás, Gabriel sentia o maior de todos os orgulhos, a trajetória de seus filhos. Ele compreendia que a maior herança que deixou não foram os bens materiais, mas os valores de integridade, amor incondicional e a prova de que, com trabalho e união é possível superar as maiores crises.
A vida de Zé Gabriel é o retrato fiel do povo cearense e da hospitalidade do povo acreano, ele permanece como exemplo de que o afeto e a dedicação pode construir um lar indestrutível.
A história de Zé Gabriel e Valquíria é a prova de que uma vida simples, vivida com empatia, amor, fé e dedicação ao próximo torna-se uma riqueza inesquecível.
Zé Gabriel faleceu em 29 de maio de 1998, deixando sua esposa Valquíria, seus filhos, netos e amigos de corações enlutados, com sua breve partida.
Zé Gabriel tinha um prestígio tão grande entre os moradores da zona rural, que no dia do seu velório, choveu quase o dia todo, o enterro teve que esperar seus amigos que vinham da zona rural chegar, mesmo debaixo de chuva, eles não deixaram de dar último adeus a Zé Gabriel.
Valquíria está aposentada, morando em Rio Branco, cercada pelo amor de seus filhos, genros, netos e bisnetos.
Mas, não esquece de seu grande amor, Gabriel.
Ele foi um esposo amoroso, um pai exemplar e um homem de valores e princípios. Seu legado jamais será esquecido por todos aqueles que acompanharam a trajetória desse homem incrível e admirável, que escolheu Brasileia para viver e amar nossa terra.