colunista: Prof. Me. João Evangelista
A conta que a eleição não pode esconder
Análise de Conjuntura Econômica & Política
Há uma conta que não aparece necessariamente nos palanques, nos discursos de campanha ou nas promessas eleitorais, mas que continuará sendo cobrada depois da eleição: a conta das finanças públicas brasileiras
Enquanto a disputa eleitoral concentra atenções em propostas, alianças e estratégias políticas, os números do orçamento colocam diante do próximo governo um desafio de difícil equação: controlar a trajetória da dívida, preservar investimentos, financiar políticas públicas e, ao mesmo tempo, manter a economia crescendo.
O problema não está apenas no tamanho da dívida. Está na combinação entre despesas, resultado fiscal, juros e crescimento econômico.
E os números ajudam a dimensionar o tamanho do desafio.
A dívida que continua subindo. Segundo o Banco Central, a Dívida Bruta do Governo Geral, que havia recuado após o pico registrado durante a pandemia, voltou a crescer nos últimos anos. O indicador passou de 72% do PIB em 2022 para 76% em 2024 e 79% em 2025.
Para 2026, as projeções citadas pelo Banco Central apontam uma razão dívida/PIB ainda maior: a mediana das expectativas do mercado estava em 84% do PIB, enquanto o cenário de referência do Tesouro Nacional projetava 86%. Não é apenas um número contábil.
A trajetória da dívida influencia o custo de financiamento do governo, as expectativas dos agentes econômicos e o espaço disponível para investimentos e políticas públicas.
Quanto maior a pressão financeira, mais difícil se torna ampliar despesas sem apresentar uma fonte permanente de financiamento.
O peso dos juros. Existe ainda uma segunda dimensão da equação: o custo de carregar essa dívida.
Dados do Banco Central mostram que, nos 12 meses encerrados em abril de 2026, os juros nominais do setor público alcançaram R$ 1,0955 trilhão, o equivalente a 8,43% do PIB. No mesmo período, o déficit nominal — que incorpora o resultado primário e os juros — chegou a R$ 1,2221 trilhão, ou 9,41% do PIB.
Esses números ajudam a explicar por que o debate fiscal não pode se limitar à discussão sobre arrecadação.
É preciso olhar também para o custo do endividamento. Quando o governo precisa destinar parcela crescente de seus recursos para financiar a própria dívida, diminui o espaço para outras prioridades. O orçamento passa a ser uma arena cada vez mais disputada.
A questão central: quem paga a conta?
É aqui que a discussão fiscal deixa de ser exclusivamente técnica e passa a interessar diretamente ao cidadão.
Toda política pública tem custo. Toda ampliação de benefício precisa de financiamento. Todo investimento precisa estar amparado por recursos presentes ou futuros.
A pergunta que deveria acompanhar qualquer grande promessa eleitoral é simples:
Quanto custa, de onde virá o dinheiro e por quanto tempo será possível manter essa despesa?
Não se trata de defender simplesmente mais ou menos gasto público.
Trata-se de discutir a qualidade, a eficiência e a sustentabilidade desse gasto.
O próximo presidente, independentemente de quem vencer a eleição, encontrará um cenário no qual as escolhas fiscais estarão entre os principais testes de governabilidade.
Reduzir despesas pode enfrentar resistência política e social. Aumentar impostos também. Alterar regras previdenciárias, rever benefícios, limitar determinadas despesas ou modificar estruturas do orçamento exige negociação e capacidade de articulação no Congresso.
Ao mesmo tempo, simplesmente ampliar gastos sem indicar fontes permanentes de financiamento pode aumentar a pressão sobre a dívida.
É justamente nesse espaço estreito que estará o desafio.
O debate eleitoral costuma privilegiar aquilo que pode ser comunicado rapidamente ao eleitor: obras, programas, benefícios, redução de impostos, aumento de investimentos e novas políticas públicas.
Mas existe uma parte menos atraente da política: explicar como tudo isso será pago.
É justamente essa discussão que precisa ganhar espaço.
O eleitor não precisa apenas conhecer o tamanho das promessas. Precisa conhecer também seus custos e suas consequências orçamentárias.
A transparência fiscal deveria ser parte essencial de qualquer projeto de governo.
A eleição termina em outubro. O orçamento, não.
No dia seguinte à posse, discursos precisam se transformar em números, e números precisam caber dentro da realidade fiscal.
O governo eleito terá de administrar uma equação que não aceita soluções mágicas: receitas, despesas, dívida, juros, crescimento e investimentos precisam encontrar algum ponto de equilíbrio.
O Tesouro Nacional mantém acompanhamento permanente da Dívida Pública Federal, com dados sobre estoque, emissões, resgates, composição, vencimentos e custo da dívida.
Isso significa que os números estão disponíveis.
O que ainda precisa avançar é a disposição política para colocá-los no centro do debate.
A conta não desaparece com a eleição. Talvez essa seja a principal questão que a campanha eleitoral deveria enfrentar.
O Brasil não poderá escolher apenas o que pretende fazer. Precisará escolher, por meio do debate democrático, quais prioridades financiar, quanto está disposto a gastar e quais mecanismos utilizará para manter as contas sustentáveis.
A dívida não vota.
Os juros não fazem campanha.
O déficit não sobe em palanque.
Mas todos eles estarão presentes no dia seguinte à eleição.
E será justamente nesse momento que começará a verdadeira prova de governabilidade.
Porque administrar um país não significa apenas prometer o futuro. Significa também apresentar a conta — e explicar quem vai pagar por ela.