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ALÉM DA MANCHETE

ALÉM DA MANCHETE

 

colunista: Prof. Me. João Evangelista

Quando a campanha começa a governar

Há uma pergunta que começa a ganhar espaço no debate político brasileiro: até que ponto as decisões de um governo podem ser influenciadas pelo calendário eleitoral?

Às vésperas de uma nova disputa eleitoral, o presidente Lula passou a dar maior destaque a histórias de brasileiros endividados e preocupados com a própria saúde mental. O tema é relevante e merece atenção do poder público. Mas a coincidência temporal alimenta uma discussão inevitável: por que determinadas pautas ganham prioridade justamente quando as pesquisas eleitorais passam a ocupar o centro do debate político?

Para os críticos do governo, não se trata de um episódio isolado. Eles apontam uma sequência de mudanças e anúncios que, na interpretação deles, revelaria uma administração cada vez mais sensível aos movimentos da opinião pública.

Um dos exemplos citados é o Bolsa Família. O programa teve seu valor ampliado em um período próximo às eleições, o que provocou críticas sobre a utilização eleitoral de políticas sociais. Outro caso mencionado é a chamada “taxa das blusinhas”, cuja alteração também passou a ser associada ao ambiente político e à pressão da opinião pública.

Agora, a discussão chega às bets, setor que o próprio governo buscou regulamentar e tributar. A regulamentação foi apresentada como uma forma de organizar o mercado, aumentar o controle estatal e estabelecer regras para a atividade. Com o crescimento das preocupações relacionadas ao endividamento das famílias e aos possíveis impactos sociais das apostas, o discurso oficial passou a enfatizar também medidas de restrição e proteção ao consumidor.

A mudança de tom provocou uma pergunta incômoda: o governo está mudando sua estratégia em função de uma nova realidade social ou também em resposta ao ambiente eleitoral?

É nesse ponto que a crítica ganha dimensão maior.

Um governo precisa tomar decisões que, muitas vezes, são impopulares no curto prazo, mas necessárias no longo prazo. Da mesma forma, pode rever políticas quando os resultados demonstram que determinada estratégia não funcionou. O problema surge quando a sociedade passa a perceber que as decisões públicas acompanham demasiadamente as oscilações das pesquisas.

E essa percepção, por si só, já representa um problema político.

O governo e o calendário eleitoral

Em democracias, eleições fazem parte da vida institucional. Governos naturalmente observam a opinião pública, partidos fazem pesquisas e candidatos ajustam seus discursos. Isso é parte do jogo democrático.

Mas existe uma diferença importante entre governar considerando as demandas da sociedade e governar exclusivamente em função da próxima eleição.

Quando uma política pública é anunciada, ampliada, reduzida ou modificada, a pergunta fundamental deveria ser: qual problema ela pretende resolver? Qual será seu custo? Quem será beneficiado? Quem pagará a conta? E quais serão seus efeitos daqui a cinco ou dez anos?

Essas perguntas são ainda mais importantes quando se trata de programas sociais, tributação e medidas que afetam diretamente o orçamento das famílias.

O Brasil não pode ser administrado apenas olhando para o próximo gráfico de pesquisa.

O eleitor também precisa olhar além da manchete

É justamente aqui que entra o papel da sociedade.

Uma democracia madura não pode avaliar um governo apenas pelo anúncio do dia. É preciso observar o conjunto da obra: quanto custa, de onde vem o dinheiro, quais são os resultados e quem será responsável pela conta no futuro.

Uma medida pode ser popular e, ainda assim, produzir consequências fiscais importantes. Pode ser impopular e, ao mesmo tempo, necessária. Pode ser apresentada como solução imediata e não resolver o problema estrutural.

Por isso, mais importante do que perguntar se determinada medida agrada ou desagrada é perguntar: qual é a razão, qual é o custo e qual é o resultado esperado?

No fim das contas, a grande discussão não é apenas sobre Lula, Bolsonaro, esquerda ou direita. É sobre o tipo de Estado que o brasileiro deseja construir.

Um Estado que reage às pesquisas ou um Estado capaz de planejar?

Um governo que pensa na próxima eleição ou uma administração preocupada também com a próxima geração?

Essa é a discussão que muitas vezes desaparece quando a política se resume à manchete.

Porque, como o próprio nome desta coluna propõe, é preciso ir além da manchete.

Além da Manchete.

A notícia termina onde começa a análise.