O senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou neste sábado (11) que pretende procurar representantes do governo da China, incluindo a Embaixada chinesa no Brasil, para tentar reverter a sobretaxa incidente sobre parte das exportações brasileiras de carne bovina destinadas ao mercado chinês.
A declaração foi feita durante uma transmissão ao vivo nas redes sociais do parlamentar, em meio ao debate sobre as recentes barreiras comerciais enfrentadas pelo Brasil em mercados internacionais.
Durante a transmissão, Flávio Bolsonaro responsabilizou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo cenário atual, classificando a medida chinesa como consequência de uma condução ineficiente da política comercial brasileira.
Segundo o senador, sua atuação buscará combater tarifas impostas aos produtos brasileiros “independentemente do país de origem”, afirmando que pretende abrir um canal de diálogo direto com autoridades de Pequim para discutir a revisão da cobrança.
A medida adotada pela China prevê uma sobretaxa de 55% para as exportações de carne bovina que ultrapassarem a cota anual de importação estabelecida para cada país fornecedor.
Como as vendas dentro da cota já estão sujeitas a uma tarifa de 12%, os embarques excedentes passam a enfrentar uma carga tributária total de 67%.
Durante a transmissão, Flávio Bolsonaro afirmou que a tributação chegaria a 62%. Posteriormente, verificações realizadas por veículos de imprensa apontaram que a soma correta entre a alíquota ordinária e a sobretaxa é de 67%.
A sobretaxa foi anunciada pelo Ministério do Comércio da China em 31 de dezembro de 2025 e passou a valer em 1º de janeiro de 2026, atingindo os principais fornecedores de carne bovina ao mercado chinês, entre eles Brasil, Argentina, Uruguai e Estados Unidos.
Segundo o governo chinês, a decisão foi tomada após uma investigação concluir que o crescimento das importações estaria causando prejuízos à indústria doméstica de carnes. A medida tem validade prevista de três anos.
Ao mesmo tempo, Pequim instituiu um sistema de cotas anuais isentas da sobretaxa. O Brasil recebeu a maior autorização entre todos os exportadores: 1,1 milhão de toneladas em 2026, volume quase duas vezes superior ao destinado à Argentina. O cronograma prevê expansão gradual dessas cotas até 2028.
Levantamento da consultoria StoneX indica que o Brasil já havia utilizado 98,5% da cota chinesa até junho, após exportar aproximadamente 1,5 milhão de toneladas de carne bovina no primeiro semestre de 2026 — crescimento de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Segundo a consultoria, o rápido consumo da cota decorreu da forte aceleração dos embarques brasileiros, impulsionada pela expectativa de atingir o limite anual antes da incidência da sobretaxa. Como o processo de internalização da carne no mercado chinês leva entre 45 e 60 dias, muitos exportadores anteciparam as remessas para garantir condições comerciais mais favoráveis.
Na avaliação do mercado, esse movimento explica o esgotamento precoce da cota e a consequente aplicação da sobretaxa sobre parte das exportações, mais do que eventuais falhas nas negociações diplomáticas entre Brasil e China.
A manifestação de Flávio Bolsonaro acontece em um momento de crescente tensão nas relações comerciais internacionais envolvendo o Brasil.
Além da medida chinesa, o país acompanha a entrada em vigor da tarifa de 25% anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros, prevista para esta semana.
O governo federal tem associado politicamente essa decisão à atuação internacional da família Bolsonaro, especialmente após encontros do senador com autoridades norte-americanas. Flávio nega qualquer responsabilidade e afirma que tem buscado atuar para evitar sanções ao Brasil.
Na última semana, o parlamentar participou de uma audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em Washington, destinada a discutir práticas comerciais brasileiras. Segundo ele, sua participação teve como objetivo defender os interesses do setor exportador brasileiro e tentar evitar a adoção das novas tarifas.
Durante a transmissão, Flávio Bolsonaro mencionou ainda a decisão da União Europeia de restringir, em junho, a entrada de determinados produtos brasileiros de origem animal, entre eles carnes bovina e de frango.
Para o senador, o episódio reforça o que considera uma perda de competitividade e de influência do Brasil nas negociações comerciais internacionais. Já o governo federal sustenta que os diferentes casos possuem naturezas distintas e que mantém negociações diplomáticas para reduzir os impactos sobre o comércio exterior brasileiro.
Reportagem elaborada com base em declarações públicas do senador Flávio Bolsonaro, informações oficiais do Ministério do Comércio da China e dados de mercado divulgados pela consultoria StoneX e por veículos de imprensa nacionais.