colunista: Ivana Cristina
Ícones de Brasileia e Epitaciolândia
Texto escrito por João Evangelista
Falar de João Evangelista Moreira é contar um capítulo importante da história de Brasiléia. Conhecido carinhosamente por todos como Seu Vanjú, ele construiu uma trajetória marcada pelo trabalho, pela honestidade e pelo compromisso com o desenvolvimento da cidade.
Nascido em 27 de dezembro de 1933, em Brasiléia, Seu Vanjú é filho de Francisco José Moreira e Maria da Anunciação Moreira, maranhenses que escolheram o Acre para construir uma nova vida. Cresceu ao lado dos irmãos Orlando Moreira, Rolando Moreira, Atanagildo Moreira, Astério Moreira, Auri Moreira e Miriam Moreira, em uma família que se tornaria conhecida pela dedicação ao trabalho e pelo espírito empreendedor.
Ao lado do irmão Atanagildo Moreira, Seu Vanjú entre os seus 20 e poucos anos de idade, foi um dos primeiros comerciantes de Brasiléia. Juntos fundaram a tradicional Loja Irmãos Moreira – Casa Londrina, na Av. Prefeito Rolando de Paula Moreira (rua da frente) em frente à delegacia de polícia, referência para a população da época. O estabelecimento comprava produtos extrativistas, como borracha e castanha, e oferecia de tudo um pouco no varejo, abastecendo famílias de Brasiléia e da região quando o comércio ainda dava seus primeiros passos.
Casado com Maria Celeste Moreira, dessa união nasceram quatro filhos: Hélder Rocha Moreira (mora ainda em Brasiléia), João Evangelista Moreira Filho, Antônio Roberto Rocha Moreira e Eliana Celle Rocha Moreira.
No comércio, Seu Vanjú ficou conhecido não apenas pela visão empreendedora, mas principalmente pela forma humana de tratar as pessoas. Trabalhador incansável e de coração generoso, ajudou inúmeras famílias ao longo de sua vida.
Quem viveu em Brasiléia nas décadas passadas guarda lembranças inesquecíveis de sua rotina. Ainda antes do amanhecer, por volta das cinco horas da manhã, ele já estava de portas abertas para receber os clientes. A carne fresca, muito aguardada pela população, chegava diariamente em uma carroça de bois, diretamente do curre (abatedouro), numa época em que ainda não existiam caminhões frigoríficos para esse tipo de transporte. Formavam-se filas logo cedo, e Seu Vanjú atendia cada cliente com um sorriso no rosto, cordialidade e respeito.
Além do supermercado, diversificou seus investimentos. Atuou na criação de gado, no cultivo de milho e arroz e foi proprietário do tradicional Hotel Fronteira, contribuindo para o crescimento econômico de Brasiléia.
A educação dos filhos sempre foi uma prioridade, graças ao incentivo e ao esforço dos pais. Durante o período em que estudavam em Belém, nas férias retornavam a Brasiléia para ajudar o pai no supermercado e nas demais atividades da família, aprendendo desde cedo o valor do trabalho.
A força de um homem que escolheu o trabalho
A família Moreira sempre esteve diretamente ligada à vida pública de Brasiléia. Em uma época em que as disputas políticas eram marcadas por fortes rivalidades e, muitas vezes, resolvidas por confrontos armados, os Moreira tiveram papel de destaque na construção da história política do município.
Foi nesse cenário que a família sofreu uma de suas maiores dores. Durante um comício político, Seu Vanjú perdeu o irmão Rolando Moreira, então prefeito de Brasiléia, em um episódio que causou profunda comoção entre os moradores da cidade. A tragédia marcou para sempre a história da família e do município.
Apesar da perda irreparável, João Evangelista Moreira jamais permitiu que a dor interrompesse sua caminhada. Escolheu seguir em frente pelo caminho do trabalho, dedicando-se ainda mais à família, aos seus empreendimentos e ao desenvolvimento de Brasiléia. Sua resposta às dificuldades sempre foi o esforço diário, a honestidade e o compromisso com a comunidade.
Outros irmãos também exerceram importantes funções públicas, atuando como prefeitos e vereadores, dando continuidade à tradição política da família. Com Seu Vanjú não foi diferente quanto aos convites. Ao longo da vida, recebeu diversas propostas para disputar cargos eletivos, impulsionado pelo prestígio que conquistou junto à população e pela credibilidade construída como comerciante e empreendedor.
Entretanto, fiel ao seu jeito simples e discreto, sempre recusou todos os convites. Preferiu servir à população de outra forma: trabalhando, gerando empregos, movimentando a economia local e ajudando quem precisava, sem ocupar qualquer cargo político.
Essa postura consolidou ainda mais sua imagem como um homem íntegro, respeitado e comprometido com Brasiléia. Seu legado não foi construído nas urnas, mas no balcão do comércio, nas fazendas, no Hotel Fronteira e, principalmente, na confiança que conquistou ao longo de décadas de dedicação à sua cidade e ao seu povo.
Um convite para governar Brasiléia
Um episódio marcante da vida de Seu Vanjú aconteceu durante uma viagem de avião do Rio de Janeiro para o Acre. Em uma escala na cidade de Cuiabá, conheceu José Augusto, governador do Acre. A conversa deu início a uma grande amizade entre os dois.
Segundo a história preservada pela família, foi dessa amizade que surgiu o convite para que João Evangelista Moreira assumisse a Prefeitura de Brasiléia. Na época, porém, Seu Vanjú já estava totalmente dedicado ao comércio e aos negócios da família. Convicto de que sua missão era empreender e contribuir para o desenvolvimento da cidade por meio do trabalho, agradeceu a confiança, mas recusou o convite.
Em seu lugar, indicou o irmão Rolando Moreira, que havia acabado de deixar o Exército e reunia as qualidades que julgava necessárias para administrar o município. Rolando aceitou o desafio e iniciou uma trajetória política que marcaria a história de Brasiléia.
Esse episódio demonstra o prestígio e a credibilidade de Seu Vanjú, que mesmo sem nunca exercer um cargo público, participou de importantes decisões para o futuro do município. Ao longo de sua vida, recebeu outros convites para ingressar na política, mas manteve a mesma postura: preferiu continuar servindo à população como comerciante, empreendedor e homem de comunidade, acreditando que também era possível transformar a sociedade pelo trabalho, pela honestidade e pelo exemplo.
A maior tragédia da família Moreira
A trajetória de Seu Vanjú foi marcada por muitas conquistas, mas também por uma das maiores tragédias da história política de Brasiléia.
Na década de 1960, o Acre vivia um período de forte polarização política. Em diversas regiões do estado, os conflitos entre adversários ultrapassavam o campo das ideias e, infelizmente, não eram raras as disputas resolvidas pela força das armas.
Foi nesse contexto que, na noite de 22 de agosto de 1963, Brasiléia viveu um dos episódios mais violentos de sua história. O então prefeito Rolando de Paula Moreira, irmão de Seu Vanjú, participou de acontecimentos que culminaram em um intenso confronto armado na localidade conhecida como Três Botequins, onde ocorria um comício da oposição.
De acordo com os relatos históricos, a confusão teve início após uma discussão envolvendo o então delegado Gentil Ferreira. A situação rapidamente saiu do controle. Rolando Moreira e seus irmãos dirigiram-se ao local e acabaram envolvidos em um intenso tiroteio.
Durante o confronto, o prefeito foi atingido por diversos disparos, ficando gravemente ferido. Dois dias depois, em 24 de agosto de 1963, não resistiu aos ferimentos e faleceu, mergulhando Brasiléia em um profundo sentimento de luto. A notícia comoveu toda a população, que acompanhou com tristeza a perda de um jovem prefeito cuja trajetória política havia sido iniciada com o apoio da própria família.
O episódio entrou para a história como um dos mais sangrentos da política acreana. Além da morte de Rolando Moreira, outras pessoas perderam a vida e várias ficaram feridas. Passadas mais de seis décadas, o caso continua cercado de controvérsias, e jamais houve uma conclusão definitiva sobre a autoria dos disparos que atingiram mortalmente o prefeito.
Para João Evangelista Moreira, a dor foi imensurável. Afinal, havia sido ele quem, anos antes, recusara o convite para assumir a Prefeitura de Brasiléia e indicara o irmão Rolando para exercer a função. A perda representou não apenas um golpe para a família, mas também para toda a comunidade brasileiense.
Mesmo diante dessa tragédia, Seu Vanjú nunca alimentou o ódio nem permitiu que a violência mudasse seus princípios. Escolheu honrar a memória do irmão da forma que sempre acreditou ser a mais digna: trabalhando. Continuou investindo em Brasiléia, fortalecendo o comércio, gerando empregos, ajudando quem precisava e contribuindo para o crescimento da cidade que tanto ama.
Embora a família Moreira continuasse participando da vida pública — com outros irmãos exercendo mandatos como prefeitos e vereadores —, Seu Vanjú permaneceu fiel à decisão que tomou ainda jovem. Recebeu diversos convites para disputar cargos eletivos, mas recusou todos. Preferiu construir seu legado fora da política partidária, convencido de que servir à população também significava empreender, gerar oportunidades e agir com honestidade todos os dias.
Assim, enquanto outros membros da família deixaram suas marcas na administração pública, João Evangelista Moreira escolheu escrever sua história pelo trabalho, pela solidariedade e pelo exemplo de vida, tornando-se uma das figuras mais respeitadas e admiradas de Brasiléia.
Hoje, aos 92 anos, Seu Vanjú vive na capital acreana aos lado de um dos filhos, onde dispõe de melhores recursos para os cuidados que a idade exige. Com boa saúde e cercado pelo carinho da família, continua sendo lembrado como um dos grandes pioneiros do comércio de Brasiléia.
Sua história se confunde com a própria história do município. O legado de trabalho, honestidade, generosidade, permanece vivo na memória de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Seu Vanjú é, sem dúvida, um exemplo de homem que ajudou a construir Brasiléia e deixou sua marca para as futuras.