colunista: Prof. Me. João Evangelista
Famílias brasileiras enfrentam maior pressão sobre o orçamento, enquanto atrasos avançam em diferentes modalidades de crédito
A menos de uma semana do primeiro turno das eleições presidenciais, um indicador econômico chama a atenção para uma realidade que vai muito além das manchetes políticas: a dificuldade de milhões de brasileiros para manter as contas em dia.
Dados do Banco Central mostram que a inadimplência das pessoas físicas no crédito livre chegou a 8%, atingindo um dos níveis mais elevados da série histórica. O indicador considera operações com pelo menos uma parcela em atraso superior a 90 dias.
O cenário fica ainda mais expressivo quando se observa o comportamento de algumas modalidades de crédito.
No cartão de crédito rotativo, a inadimplência alcança 66,2%. Trata-se de uma modalidade conhecida pelo elevado custo financeiro e que, quando utilizada de forma prolongada, pode transformar uma dívida inicialmente pequena em um compromisso difícil de administrar. O Banco Central considera, nesse indicador, operações com atraso superior a 90 dias.
A dívida se espalha pelo orçamento
A pressão não está concentrada apenas no cartão. Outros segmentos do crédito também apresentam índices elevados de inadimplência:
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Cartão de crédito total: 10%
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Crédito pessoal: 11%
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Consignado privado: 10,6%
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Consignado total: 3,8%
O Banco Central acompanha essas modalidades em séries mensais de inadimplência, sempre considerando o percentual da carteira com operações em atraso superior a 90 dias.
Mais do que números isolados, os indicadores revelam a dificuldade de parte das famílias em equilibrar renda, consumo, empréstimos e compromissos financeiros.
Quando o orçamento já está comprometido, qualquer nova despesa pode exigir o uso de crédito. E, quando o crédito passa a ser utilizado para cobrir despesas recorrentes, o consumidor pode entrar em um ciclo de endividamento que reduz sua capacidade de pagamento nos meses seguintes.
O que está além da manchete?
É justamente aqui que os números do Banco Central ganham importância.
A discussão sobre a economia não se resume aos índices de inflação, crescimento do PIB ou geração de empregos. Existe também uma economia que aparece todos os meses dentro de casa: a conta que vence, a parcela que não cabe no orçamento e o cartão que deixa de ser uma ferramenta de pagamento para se transformar em dívida.
A inadimplência, portanto, funciona como um importante termômetro da capacidade financeira das famílias.
Às vésperas de uma eleição presidencial, os dados ajudam a colocar no centro do debate uma questão concreta: como está a capacidade do brasileiro de pagar suas contas e sustentar seu padrão de consumo?
Essa é a parte que está além da manchete.
Porque, no fim das contas, a saúde da economia também se mede pela distância entre aquilo que entra no bolso e aquilo que precisa sair dele todos os meses.
Fonte: Banco Central do Brasil — Departamento de Estatísticas.